Resenha Série: Deuses Americanos (1ª Temporada)


Explicar a "existência" de um deus é complicada, mas uma coisa fica evidente na obra de Neil Gaiman. Os deuses existem a nosso bel-prazer e eles se modificam a medida em que nós evoluímos.

A compreensão de tudo o que nos cerca é cada vez maior, portanto, os deuses mudam, mas nunca eles deixam de existir. Claro, precisamos nos proteger contra o que não compreendemos ou simplesmente contra o que não queremos encarar que seja a temida verdade, passando assim a usarmos os deuses, quer dizer, O Deus, para nos dizer o que é A verdade fugindo dos nossos medos numa eterna busca em compreender a própria vida e dar um sentido a própria existência.

Tanto o livro quanto a série são recheados de meta-linguagem demonstrando que o esquecimento que esses deuses foram relegados em detrimento da evolução da compreensão do homem, que não se tornou necessariamente a sabedoria. Shadow Moon (Ricky Whittle) nos representa na série como o ser permanentemente confuso no livro/série de difícil digestão, mas talvez todos nós sejamos Shadow diante ao mundo cada vez mais conectado e alucinante em que nos perguntamos "que porra é essa". 

A obra do ateu Neil Gaiman não gira em torno de crer em nada, ao contrário, busca refletir com um lado oculto e mágico da existência que deixamos de lado numa vida em que com certeza não entendemos nem metade das coisas que vemos. Nessa metáfora dos deuses com a vida, independentemente disso nós precisamos buscar histórias que nos ensinem a como poder viver. Para ele e para Wednesday (Ian McShane), nos deuses residem essas histórias e tais histórias estão se perdendo para coisas que não controlamos, os neodeuses, como a Mídia (Gillian Anderson) ou os nomeados Mr. World (Crispin Glover - o pai de Marty McFly) e Technical Boy (Bruce Langley).

Os deuses são a manifestação de nossos desejos, eles são o que acreditamos que eles sejam e representam o que somos e o que existe; o que na visão de Gaiman encaixa-se perfeitamente sobre a realidade em que vivemos. Sobre isso, a alegoria com o Jesus (Jeremy Davies) mexicano é precisa ao questionar, por exemplo, a xenofobia cada vez mais presente no mundo atual ou mesmo a escravidão com Anansi (Orlando Jones), sem contar a misoginia com Bilquis (Yetidi Badaki) e o mundo protecionista Vulcan (Corbin Bernsen) - que foi criado especialmente para a série.

Em tempos de Netflix em que maratonar histórias se tornou um achievement motivado pela própria Netflix e sua contagem regressiva, que liga um episódio ao outro que busca que você passe o dia inteiro em frente a televisão; tornou-se uma exigência aos showrunners e diretores produzirem séries com o ritmo cada vez mais impactante entre os fatos com o intuito principal de prender a atenção do público. Então se você procura um entretenimento mais tradicional "Deuses Americanos" não é para você. O ritmo aqui é lento e o roteiro é denso escondido atrás do surrealismo visual. 

Contando com diálogos fortes e fotografia belíssima, o senso de mistério é presente o tempo todo e a figura dócil e ameaçadora de Wednesday representa isso. Aqui a mão de Neil Gaiman como produtor executivo acaba pesando em Bryan Fuller (uma escolha certeira), onde ele expande as histórias do já pesado livro servindo como um complemento delicioso para quem, como eu, leu a obra (como na trama de Laura (Emily Browning) e do leprechaun Mad Sweeney (Pablo Scheibler) além de dar vida ao que lemos no livro. Resumindo, essa primeira temporada claramente serviu como introdução e talvez o erro dela seja em ter sido direcionada muito aos fãs de Neil Gaiman e do livro que a inspirou, afastando assim o espectador leigo que buscava um entretenimento menos atravancado, deixando a história mais palatável pra quem não a conhece.

Sim claro, é evidente que toda e qualquer produção televisiva desde o início tem esse objetivo final de prender a atenção do espectador, no entanto, isso tem intensificado graças aos tempos atuais em que o conteúdo é cada vez maior, tal qual a velocidade que nós tentamos digerir tudo isso. É só prestar atenção em você mesmo. Para os quatro cantos do mundo e da casa carregamos os nossos celulares aonde for, e num exercício involuntário o tiramos do sofá por mais interessante que seja a série, mesmo que seja pra inutilmente olhar a hora que a cinco minutos acabamos de ver ou esperando a mensagem que não chega. Somos marcados pela ansiedade. É uma osmose, um vício que não admitimos a nós mesmos ter. Sentimo-nos sem um braço ao sair de casa sem o celular e temos um ataque cardíaco ao não senti-lo em nosso bolso. Talvez a única vez que nos libertamos de tudo isso seja enquanto estamos dormindo, mas se o mundo não deixa de marcar presença em nossos sonhos, temos que estar com o celular ao lado para "sentir" sua existência. 

Tudo isso foi para dizer aonde "Deuses Americanos" gira, que é em torno do que idolatramos e dependemos. Nos tempos mais antigos idolatrávamos deuses para explicar o que não compreendíamos, agradecendo-lhes pelo que nos era proporcionado e clamando para eles nos protegerem contra o que não conseguíamos nos proteger: o medo. Estabelecia-se aí uma relação de troca, os deuses existiam assim que nos acreditávamos neles, e eles existindo passavam a residir no sentimento de gratidão que tínhamos por sobreviver por mais um dia. Hoje? Mal sabemos. Mas ao contrário de Laura não temos a chance de renascer pra dar valor à vida. Talvez a história dos deuses sirva pra isso.

A bola foi levantada DC, o caminho é esse


Quando uma fórmula faz sucesso, automaticamente tenta-se renovar essa ideia e em dois sentidos mercadológicos:

1. Pra fazer o sucesso que essa ideia teve, ela precisa ser trazer algo novo para durar um tempo maior

2. Trazer um diferencial sobre essa ideia que também atraia o público buscando que esse diferencial seja confundido com a "minha marca".

Tá parecendo uma introdução de um livro de marketing, mas na faculdade de publicidade pude elucidar e compreender algumas questões sobre essa guerra que DC e Marvel travam pela atenção do público.

Muita gente discute e até condena essa malfadada "fórmula Marvel de cinema" que na grande maioria de seus filmes abordam seus heróis da mesma forma, impossibilitando um desenvolvimento maior de sua personalidade e em contrapartida apelando pra o que seus heróis têm de mais forte sobre o lado humano; assim, os aproximando ao seu público e trazendo ação e aventura pra quem quer ver isso e pra quem espera ver isso. Essa é a característica da editora desde sempre e a Disney sabe disso, aplica em seus filmes da melhor forma e lucra rios de dinheiro proporcionando a seu público o entretenimento necessário fugindo de criticas e polêmicas ao olhar da grande massa de seu público. Entre escorregões como em "Doutor Estranho" e sucessos inegáveis em "Capitão América 2" sua fórmula bem-sucedida entre os reles mortais está ali, e nem tem porque alterá-la porque em "time que está ganhando não se mexe".

Sobre isso, na resenha de "Batman v Superman" apontei que apesar dos milhões de defeitos, o filme tinha uma qualidade inegável dentro de si que era: se sobrepor corajosamente a fórmula super heroica que víamos no cinema adicionando assim um caráter dramático a seus heróis. No entanto, o insucesso foi uma marca e a DC tropeçava feio em erros primários ao talvez tornar seus filmes muito mais grandiosos do que eram, escolhendo o chamariz dos dois heróis envolvidos do que uma certa humildade em reconhecer que ela apenas estava começando nesse jogo. Já em "Esquadrão Suicida" o jogo foi totalmente diferente, depois desse tropeço gigantesco na via investimento x retorno, a solução "genial" encontrada era refilmar partes do longa, mudar o tom do filme e "vender" o que não foi comprado (estou procurando o Coringa até agora) tornando o filme mais divertido (e lucrativo) a grande massa, mas igualmente sendo um insucesso de crítica.

O que quero dizer com tudo isso? Ao contrário da Marvel, a DC nunca soube jogar com os pontos fortes de seus heróis. Eles eram deidades, por si só são afastados da humanidade e nos salvam por uma questão de honra, não somente em busca de justiça; afinal, exceto o Batman, eles não têm nada a ver com a Terra.

Onde "Mulher-Maravilha" acertou? Nisso.

Marvel e DC têm em seus heróis qualidades que se assemelham mas que guardam diferenças em como são abordadas. Enquanto a primeira criou heróis que se aproximam do que eu e você somos e sofremos, a segunda tem heróis que são muito maiores que isso tudo. Deuses, guardando o que há de mais nobre no ser humano e os inspirando eles com muito mais que um simples senso de justiça.

Pois é DC, graças à sensibilidade de uma mulher você acertou finalmente.

Brincam que todos queriam ser o Batman, mas DC, nem todos os heróis devem ser como ele.

Resenha Cinema: Mulher-Maravilha


Sinceramente não há muito a falar do roteiro pois ele é uma simples história de origem, mas é suficiente pra deixa bem claro de que, se assemelhando ao roteiro do primeiro "Capitão América", Diana sempre teve em seu coração a nobreza necessária para ser alguém de honra.

Tudo começa quando o espião norte-americano Steve Trevor (Chris Pine) acaba colidindo seu avião contra às águas da Ilha Paraíso e Diana salva a sua vida. E capturado para interrogatório, através dele Diana e Temiscira ficam sabendo da guerra mundial que está ocorrendo e se dispõe a ajudar Trevor na batalha contra o deus Ares, que para ela provocou tudo isso e é missão de uma amazona como ela derrota-lo, seja em Temiscira ou no mundo do homens. Enquanto Trevor e Diana (Gal Gadot) tentam sair de Temiscira a contragosto de sua mãe, a Alemanha está desenvolvendo um poderoso gás mostarda que para o general Erich Ludendorff (Danny Huston) tornaria os alemães invencíveis, e é missão de Trevor e de Diana impedir que isso se concretize, acabando com a guerra de uma vez por todas.

Patty Jenkins tratou a heroína da forma como deveria ser, transportando-a para a tela da forma como a conhecemos. Com os seus pontos fortes e a sensibilidade que a fizeram ser conhecida, Patty construiu um filme que contrapõe perfeitamente a inocência de Diana com Trevor sem em nenhum momento cair no comum de transformá-la em um tipo de ícone feminino, logo, não alterando traços da sua personalidade para a identificá-la aos tempos atuais ou lhe causar conflitos forçados para o aproximar do espectador.

Ela foi ensinada a defender Temiscira dos deuses e foi para a bagunça do reino dos homens para inicialmente "os defender de Ares", mas com sua inocência de amazona, soube perceber que aquele mundo não tinha que ser defendido pelos deuses, mas sim dos próprios humanos que tinham em si o bem e o mal.

Diana Prince é a Mulher-Maravilha e vice-versa. Em um filme correto e de um arroz com feijão daqueles bem temperados, eu saí do cinema com o sentimento do que é ser verdadeiramente um herói. Já está óbvio que dará tudo certo, mas no roteiro simples e firme se escolhe fortificar o ícone, a deusa, a personagem; a construindo como alguém que carrega consigo um sentimento que acaba sendo maior que qualquer humano. Isso é ser um herói, ela carrega um ideal, algo que não senti da mesma forma nos filmes da Marvel. Por ela nutrirmos um sentimento de respeito e isso só fortifica o sentimento girlpower que ela carrega consigo, aliás, há algo mais atual que isso?

Diferentes valores de justiça não podem ser aplicados como nós bem entendessemos


Costumo dizer aos outros e para mim mesmo que a vida é uma luta constante para estar certo. E ultimamente estar certo tem sido um achievment de conquista desbloqueado, quer dizer, mais um objetivo do que uma consequência, motivado principalmente pelos fenômenos das redes sociais.

No inocente "o que você está pensando" se esconde o verdadeiro questionamento do "o que eu deveria estar realmente pensando?", ou simplesmente do "eu deveria estar realmente pensando isso?". Ele te incita. Perfil em rede social significa autenticidade em um mundo que você sempre está certo, e como isso faz bem ao ego.

Na verdade, ter uma opinião e defendê-la é algo deveras complicado, e nessa batalha pelos likes que potencializam risadas em torno de pequenas frases que revelam muito mais do que queremos dizer, a consequência mais breve é que continuamos a ter ideias, mas nem queremos saber como defendê-las, afinal, tenho meu "bando de amigos/páginas virtuais". Não precisa argumentar, basta ser engraçado e aí figuras como Danilo Gentili aparecem.

Desde que o mundo é mundo e adquirimos o advento da fala, incorporando assim ao meio de linguagem que surgia através de gestos, grunhidos e desenhos, mas qualquer um escorrega quando em uma pequena frase se traveste de seus preconceitos e valida suas atitudes em virtude do bem maior. E nesse ioiô histórico desde o iluminismo em que alternamos monarquias, feudalismos, ditaduras e democracias questionando a justamente a pluralidade que possibilita o próprio pensamento assim que ela "dá errado", a dualidade de ideias permanece até hoje com o comunismo x capitalismo onde constantemente nos questionamos sobre a solução imediata do que fracassou; e apoiado na ideia que nenhum sistema funciona, tentamos pregar aos quatro cantos uma ideia que solucionaria todos os problemas ou endeusando alguém que serviria a este propósito ao invés de tentar aprimorar a si próprio ou o que já existe.

Na luta de classes cada vez mais polarizada, virou verdade o dito que "defender os direitos humanos é defender bandido", mas entre uma avalanche de fatos aterradores com o nossos dinheiro que sempre existiram, é esquecido que tais direitos são os mesmos que impossibilitam a propagação do fascismo - lembre-se que Hitler ascendeu ao poder com a lei da época debaixo do braço.

Falhamos na democracia? Talvez a reflexão tenha que ser feita por aqueles que preferem votar em trocas de favores de políticos marketeiros profissionais, ou em figuras caricatas que são o povo do povo ou em trabalhadores meritocráticos - elegendo no final das contas um "puxador de votos" - seja que nessa brincadeira menos de 7% da Câmara foi eleita pelos cidadãos, um verdadeiro deleite pelo balcão de negócios que se tornou os partidos políticos do empresariado (e tem gente que defende o liberalismo). Fundamentados na conquista de território e em tais financiamentos privados, em suma, ainda praticamos o voto de cabresto elegendo barões do café, mas agora da soja, da bala e da bíblia que são nada mais que tais defensores de ideias e da perdida moralidade que achamos que é justa de verdade.

Esses dias tem se propagado nas redes sociais o caso do jovem de São Bernardo do Campo que teve sua testa tatuada com os dizeres "eu sou ladrão e vacilão" após uma tentativa de assalto de uma bicicleta, e entre amigos virtuais e outros existentes, vejo diversas manifestações de apoio ao ocorrido e repúdio a aqueles que tentam ver o significado disso de uma forma mais humanista. Mas vamos aos fatos, relembrando aos esquecidos o óbvio:

Isto não é um jogo.

Tudo isso serviu para exemplificar que a caça de likes potencializados pela ausência de caracteres que procuram contradizer a revolta que um "textão" se notabilizou, acaba por ser uma bolha ideológica de ideias que no final das contas sustenta políticos intolerantes defensores do cidadão que se auto-intitula de bem, o que quer que o íntimo senso de justiça seja atendido e nada mais. Assim, chegamos até este ponto aonde defende-se que um crime deve sim justificar o outro. Datenas e Sherazades que ensinam que devemos ser educados até o certo ponto em que fere-se o diferente valor de justiça que você tem de mim, desviando-se do "peixe grande" que provoca o temido termo dos preguiçosos amantes da discussão que é: o reflexo social.

Numa sociedade tão injusta que parece ser ainda mais injusta depois de serem revelados esquemas e mais esquemas oligárquicos que transformaram nossa democracia em um mero atendimento de favores, é mais que natural e justificável a revolta de um povo por um sistema que em teoria deveria ser isonômico, contudo, é esse mesmo falho e falido sistema de leis (que são maiores que nós e o próprio sistema) que convivemos que impedem que retornemos às regras bíblicas de Davi e garantem a mesma liberdade que se tem possibilitando a contraditória defesa do que acaba sendo puro egoísmo.

É complicado tentar explicar o óbvio e esquecido, mas é justo a definição de justiça ser medida por cada cidadão? Verdadeiros torturadores e criminosos são aqueles que nem estão no meio dessa discussão. Logo, os condenados acabam sendo eu e você.

Resenha Filme: Sete Minutos Depois da Meia-Noite


Lidar com a dor de ver a morte de alguém querido é uma tarefa complicada para pessoas de qualquer idade, ainda mais quando participamos diretamente do processo da transição, e pessoalmente, acredito que essa é a parte ainda mais difícil se compararmos com a perda de fato. Presenciar a dor dessa pessoa amada diante aos olhos nutrindo junto a ela a esperança de que tudo voltará a ser como antes ao mesmo tempo em que intimamente vislumbramos a possibilidade de que toda aquela luta será praticamente impossível de ser superada por diversos fatores, dilacera o coração de quem foi testemunha disso, pois desperta o pior sentimento do ser humano que naturalmente nutre a esperança: a impotência.

Juntamente com essa impotência pessoal em ter que depositar a esperança de melhora em terceiros, o medo e a insegurança constante de imaginarmos possibilidades trazem consigo a contradição de querer que tudo aquilo acabe, em suma, enfrentar a verdade da finitude é a parte mais dolorosa de qualquer atividade na vida, pois implica o bem e o mal na mesma decisão restando uma ponta de egoísmo e sinceridade na tarefa de aceitar que a vida termina pra uns e continua para outros; e a dor acaba sendo o sentimento que nos separa, independentemente da religião, crença ou escolha que cada um faça e aonde poderemos ter algum suposto conforto acreditando que aquele que amamos, ao deixar de ter esta dor, estará em algum lugar melhor que nós que temos a difícil tarefa de seguir a vida. É aí que a parte da aceitação entra.

"Sete Minutos Depois da Meia-Noite" trabalha isso usando a figura do monstro residida em um subconsciente para nos ajudar a relembrar (para quem já passou por isso) como esta tarefa é complicada, um monstro que temos que domar (como aparece no pôster). O roteiro escrito por Patrick Ness, escritor do livro em que o longa é baseado, ajudou a transição dessas questões de forma absolutamente perfeita, sensível e singela como deve ser emocionando de verdade sem apelar pra pieguice.

Conor (Lewis MacDougall) é um garoto perturbado emocionalmente por causa da luta da mãe, Lizzy, (Felicity Jones) contra o câncer, percebemos isso em seu rosto e em seu silêncio. O garoto é diferente, mas dado a este assombro em vislumbrar a perda da única pessoa que o entende verdadeiramente, o garoto se perde nessas diferenças, se isola e usa até da dor para "aliviar" a dor que sente através do bullying que ele sofre na escola.

Não importando o que isso lhe inflija, ele não quer ser invisível, ele quer a punição (note como essa metalinguagem é usada) aonde seja, tentando desesperadamente criar uma rotina vencida em torno de si mesmo com o objetivo de por minutos acabar esquecendo o que está acontecendo. Uma realidade em que ele está velho demais para ser uma criança e jovem demais para ser um adulto, de um certo alguém que não se vê encaixado em nenhum lugar; seja com o pai e seja com a avó não importando a demonstração de amor que eles tenham com ele, aonde Conor usa o desenho (note que ele não termina nenhum) para tentar de alguma forma se conectar o seu subconsciente com o papel ao mesmo tempo em que com isso ele tenta com isso relembrar dos momentos felizes que sua mãe - aspirante a estudante de arte - mostrava seus desenhos a ele.

Em uma noite ele é visitado por uma ameaçadora e carismática árvore (voz de Liam Neeson) que tem a tarefa de lhe contar três histórias e dá a Conor a obrigação de contar a quarta, a verdade, o sonho/pesadelo daquilo que tanto teme e que esconde em seu íntimo.

A beleza do filme está em como são contada tais histórias aonde o vínculo com o espectador é criado instantaneamente, singeleza visual com as histórias contadas com o auxílio da aquarela, e sensibilidade em fazer compreender de que as decisões difíceis não guardam mocinhos e bandidos, mas sim decisões. Breves ensinamentos que são direcionados a nós e ao protagonista se conectando com o íntimo de cada um.

Como filme triste e simples que é "Sete Minutos Depois da Meia Noite" guarda em seus personagens o de melhor do longa e o suficiente para nos conectarmos e entender cada um dos personagens. Nós sentimos o desafio e a dor no coração de Conor, o amor verdadeiro de mãe em Lizzy, e a dor velada no coração da sua avó - marcado principalmente pela forma que ela reage quando vê todo o cômodo destruído por Conor. 

"Mas do que adianta?", frase que é dita a Conor quando este espera punição. É como se o relógio fosse a alegoria perfeita do que nos apegamos, como se cada um dos personagens fosse um nó no coração de cada um ao representar uma reação íntima que temos diante a finitude de alguém amado. É a troca de olhares e o silêncio de cada um dos personagens que guardam todo o poder da obra, é o desespero de ela dirigir sem muito sentido em alta velocidade terminando em um abraço em Conor ou nos olhares de Lizzy para ele e até do moleque que o espanca que guardam tudo aquilo que a história quer dizer.

Nos preocupamos com Conor e entendemos que ao final, na pose acolhedora e ameaçadora da árvore que o faz dizer a si mesmo a verdade, acaba-se causando o sentimento suficiente para a gente derramar lágrimas relembrando de como a aceitação dessa parte da vida é difícil.

Resenha Filme: The Discovery


De onde viemos, o que somos e para onde vamos. A produção original da Netflix "The Discovery" trabalha em cima da resposta à terceira pergunta.

Essas perguntas que afligem a humanidade desde que ela surgiu é o cerne central da existencialidade e da própria filosofia, afinal, é o medo da morte e o enfrentamento da questão da finitude inexorável a todos que nos move para tentar dar um sentido a nossa vida.

Necessitamos ser bons, e no alto de nossa natural curiosidade e prepotência necessitamos invariavelmente de dar sentido a tudo, acreditando que em vida sejamos recompensados por algo além da mera causa e efeito, quer dizer, a imortalidade é compreendida como o máximo do que uma pessoa pode ser. Como conforto, a imortalidade é uma válvula de escape para acreditarmos que nós e quem amamos irá para um lugar melhor e que futuramente a saudade deixará de existir porque "reencontraremos" esse alguém em algum lugar.

Nossa vida é pavimentada pelo "e se", somos afligidos não só pelo o que é, mas pelo o que pode ser.. Sendo a vida um eterno jogo de escolhas, creio que o nosso maior desafio é lidar com elas da forma menos dolorosa possível entendendo o passado e o presente, encarando o fato que com a ameaça constante da falibilidade que nos permeia, a melhor coisa a se fazer é assumir o peso das responsabilidades e do que nós somos antes de tentarmos melhorar como pessoas.

Thomas Harbour (Robert Redford) anuncia em uma entrevista que encontrou a prova científica de que há a vida após a morte, e essa confirmação provoca um suicídio na sua frente e cerca de quatro milhões de mortes em cerca de dois anos, quer dizer, a morte deixou de ser um mero fim para ser uma suposta "segunda chance" para certas pessoas que escolhem se libertar do peso que tem em vida, transformando um suicídio em uma alternativa ainda egoísta, mas agora plausível e não algo somente "ofensivo". O que "The Discovery" tenta deixar claro é de que a morte igualou o peso da vida a partir dessa grande descoberta, portanto o desafio agora é valorizar a vida - o que é complicado por si só sem o apoio do incerto e do errado.

Thomas desaparece após o ocorrido, mas em segredo absoluto quer saber o que há depois dessa vida após a morte e aí o filme toma rumos de um thriller envolto em suspense, mistério e até assustando na parte em como nós poderemos vivenciar esse além e como isso poderia ser usado pelos que escolhem ainda ficar.

Resumindo, tanto nós e o verdadeiro protagonista Will Harbour (Jason Segel) desejamos que isso nunca pudesse ter sido descoberto, compreendendo juntamente com ele que não importa quanto o ser humano tente dar sentido as coisas que faça, ele sempre continuará repetindo os mesmos erros que comete. A paleta de cores frias, o ambiente sempre escuro, os personagens sempre carregados tentando carregar o peso das escolhas e decisões (principalmente Will), dando destaque nessa parte à conturbada relação entre Will e Thomas.

Contudo, "The Discovery" carrega muitos defeitos. Apesar de ter essa premissa interessantíssima o filme não se aprofunda nessas questões, e mesmo com a escolha pelo lado científico e até romântico na relação fria entre Will e Isla (Rooney Mara) que derruba o filme, o roteiro acaba não se sustentando pelo seu ritmo lento e pelos seus diálogos fracos que não conseguem sustentá-lo, principalmente por essa premissa que carrega tanto potencial filosófico. Podem me acusar de não entender o filme, mas mesmo com seu final dúbio eu não acredito ter alcançado a compreensão certa, passando a impressão de que esse final forçadamente tenta nos causar a reflexão de que o filme inteiro não se aproveitou, o que é ruim.

A questão da imortalidade fundamenta religiões através dos tempos confortando e servindo como um guia moral que irá nos conduzir a algo maior, seja lá o que isso possa ser. Não vou entrar na discussão do quanto isso possa ser bom ou mal ou realmente necessário, isso é tão íntimo de cada um quanto complexa de se discutir; e "The Discovery" ao mesmo tempo que provoca a expectativa quase que instantânea que assistiremos a uma história que carregará diversas frases de efeito e questões que nos fariam refletir acerca da existência, diria que, apesar dos poréns, o filme num todo acabou acertando ao negar a percorrer este caminho mais complexo e mais fácil que própria pergunta em si incita filosoficamente e moralmente, preferindo ir pela questão científica e até romântica ao mesmo tempo em que (de forma meio confusa) tem um final dúbio, que na minha interpretação foca na dor da escolha e do quanto incompreensível ela possa ser.

O que passa pelos meus fones #146 - Mr. Big

São quatro pontos a serem esclarecidos.

1. A primeira coisa que chama a atenção é a guitarra de Paul Gilbert. Contando com uma mixagem mais grave (e mais esquisita dependendo do ponto de vista) essa ganhou mais peso e ainda mais protagonismo juntamente com o baixo sempre competente de Billy Sheehan. Os dois são monstros.

2. Como é bom ver Pat Torpey se recuperando. Se você não sabe, em 2014 o baterista foi diagnosticado com mal de Parkinson antes da turnê do álbum "The Stories We Could Tell" sendo substituído por Matt Starr. Lógico, ele se faz presente em "Defying Gravity", mas Pat está também ali segurando as baquetas em "Everbody Needs a Little Trouble" participando de todo esse clima. Uma grande prova de amizade e companheirismo do resto da banda não afastando seu amigo de tudo isso.

3. Eric Martin não envelhece, mas com esse cabelo mais curto parece uma lésbica de 40 anos.

4. Apesar de mais pesado (o que me agradou bastante) "Defying Gravity" continua sendo Mr. Big puro e será lançado dia 7 de julho,

O que passa pelos meus fones #145 - Royal Blood

O que dá pra se fazer com um baixo e uma bateria? Muitos diriam que essa é uma banda incompleta, já que o rock por si só é a representação do que uma guitarra pode fazer.

Entretanto, lembre-se que o baixo é um instrumento de corda e se aprendemos uma coisa com o rock é que Lemmy Kilmister fez do seu baixo a sua guitarra, contudo, não a protagonista como é o caso do "Royal Blood".

Eles passaram aqui no Brasil no Rock In Rio de 2015 (se não me engano) e foi com toda certeza uma das melhores coisas que podiam ter aparecido por lá, fazendo um apresentação em que nada devia a medalhões como o Metallica e demonstrando que o rock n roll não está nada morto como insistem em dizer em um senso comum.

Tá chegando. No dia 16 desse mês a dupla lançará seu segundo álbum "How Did We Get So Dark", e o último single "I Only Lie When I Love You" lançado nessa semana em seu canal, me deixou a certeza que vem por aí outro grande tapa na orelha da banda que descobri graças ao Spotify.