Tirinhas da Semana #306

Resenha Série: Desventuras em Série (1ª Temporada)


"Desventuras em Série" é uma série de treze livros escritas por Lemony Snicket, pseudônimo de Daniel Handler, que teve seu primeiro livro "Mau Começo" lançado em 1999 e teve um filme de 2004 protagonizado por Jim Carrey na pele do maléfico Conde Olaf cobrindo os três primeiros livros da série.

Se você assistiu ao filme já sabe o que aconteceu, se não, vou explicar. Os irmãos Baudelaire, formados por Violet (Malina Weissman), Klaus (Louis Hynes) e a bebê Sunny (Presley Smith) viram órfãos após um incêndio na casa em que viviam e são informados que seus pais estão mortos pelo guardião do testamento de seus pais. Seu testamento diz que com a morte dos pais eles teriam que ser designados para a casa do parente mais próximo da família e que tomariam posse da fortuna somente quando Violet fosse maior de idade; e na história, suas rotinas desafortunadas consistem em pular de casa vivendo com excêntricos e peculiares tutores e o primeiro e mais ameaçador deles é o tão malvado quanto ridículo Conde Olaf, um ator convencido e fracassado que quer a guarda dos Baudelaire com o intuito de se apoderar da fortuna que ficou no nome de Violet. Com seu plano descoberto, desde então a vida dos Baudelaire tem sido resumida em fugir dele e dos disfarces ridículos do Olaf e procurar respostas do que aconteceu realmente com seus pais.

Pessoalmente eu gosto bastante do filme e muitas das qualidades dele se assemelham com a série, tanto a fotografia escurecida como muito do clima divertido (apesar de este por ser para um público diferente acabar tendo um discutível final feliz, o que não poderia ter acontecido se realmente pensavam nele como uma franquia), e nesta primeira temporada (que contará com três e irá cobrir todos os treze livros) dirigida por Barry Sonnenfeld e com a fotografia do francês Bernard Couture, todo esse clima cinzento permanece (o que se deve muito pelo diretor ter dirigido também os dois filmes d'A Família Addams), mas agora assumindo uma faceta mais bem mais sombria, misteriosa e até violenta, principalmente residida na irretocável atuação de Conde Olaf por Neil Patrick Harris, o que até evidenciou pra aquele que, como eu, não leu nenhum dos livros de que a série está bem fiel ao material original e que certos livros se adequam melhor ao ritmo mais lento de uma série do que de um filme.

E por ser assim tão fiel, a série acaba trazendo as diversas criticas sociais que Daniel Handler deixou clara em seus livros, como o fato de as crianças serem as livres pensadoras e sempre perceberem os disfarces do Conde Olaf, enquanto os adultos constantemente se rendem aos meios comuns da autoridade (como o sr. Poe), medo (a tutora Josephine), pressão social (a juiza Strauss) e ambição (o próprio Olaf) ao invés de pensarem por si mesmos e no bem estar dos semelhantes; tanto que a certo ponto após a morte de seu tutor tio Monty, o trio acabou deixando claro que "devem cuidar de si próprios".

Na minha opinião, mais até do que o jogo de gato e rato de Conde Olaf com o trio Baudelaire, aquele que ganha destaque e é fundamental para o andamento agradável da história, trazendo aquela sensação constante de que temos de estar lendo os livros de Handler, é seu pseudônimo Lemony Snicket encarnado por Patrick Warburton responsável por quebrar a quarta parede, alertando sempre do conteúdo desagradável que não deveríamos estar assistindo, dando alertas sobre o infortúnio dos Baudelaire ou jogando frases impactantes como: "não é porque você não entende que não faz sentido.".

Sendo um livro escrito para adolescentes e com traços tão reconhecíveis para o público adulto (contando com referências do tipo de o sr. Poe sofrer de uma tosse severa como Edgar Allan Poe), "Desventuras em Série" se transformou em uma série muito gostosa (e desagradável) de se assistir sendo perfeita para aquelas maratonas que a gente sempre gosta de fazer. E a Netflix sabe disso. Obrigado de novo.

Vídeo demonstra como George Miller realmente botou a mão na massa em Mad Max

Para relembrar um pouco. "Mad Max: A Estrada da Fúria" foi disparado um dos melhores filmes de 2015 e isso se deve não só a um roteiro eficiente e sua ação visceral, mas sobretudo um filme que transparece realmente essas duas qualidades.

Mas ei, não estou dizendo que os efeitos especiais são um malefício, pelo contrário, são eles que tornam possíveis tantos e tantos filmes que antes eram de nosso imaginário. Só que como a vovó dizia: o exagero sempre dá dor de barriga. E o uso indiscriminado da CGI muitas vezes condena o filme a dar um tiro no próprio pé ao não haver preocupação suficiente com um bom roteiro.

O quarto filme dirigido por George Miller tem como grande destaque a pouca utilização desses efeitos na produção e filmagem. Claro que o polimento está lá na pós produção como você pode ver clicando aqui, mas como podemos assistir em 4 minutos é que a filmagem priorizou, por exemplo, muito mais a filmagem dos carros em movimento do que o que poderia ser totalmente feito em computação gráfica, o que deu um tom absurdamente realista ao filme nos tempos atuais e nos faz admirar ainda mais o grande trabalho de George Miller na direção de Mad Max.


Via Gizmodo

O que passa pelos meus fones #141 - Mastodon

Dia 31 de março marcará a volta do Mastodon as prateleiras com "Emperor of Sand".

Um dos principais expoentes do rock americano, a banda em "Sultan's Curse" continua em alto nível demonstrando tudo aquilo que já conhecemos: guitarras duplas pesadas e com bons riffs com aquele vocal agressivo e psicodélico.

É Mastodon puro, nem tem muito a falar. Tem certos jogos que não se altera a tática que tá dando certo.

Ouçam!



Não seja chato, todos estamos presos em uma rotina


"Precisamos nos tornar úteis"

Essa máxima absoluta é o cerne por trás da existência de nossos sistema que premia cada um pelo seu esforço empregado. A ideia de cada um fazer tudo por si antes dos tempos do feudalismo foi derrubada pelo desejo do ser humano de prosperar e da necessidade de ligação entre uma pessoa e outra, quer dizer, não só emocional, mas a ideia de que somos mais fortes juntos. Ou como sua avó dizia "duas cabeças pensam melhor que uma".

Precisamos nos sentir úteis porque necessitamos de que alguém precise e admire o que gostamos de fazer; precisamos ser úteis para apostar mais em nós mesmos.

O curta abaixo Vicious Cycle usa muito do que Westworld abordou ano passado sobre a cada vez mais pertinente mecanização do ser humano, já que muitas vezes não temos a noção exata da realidade.

Acordar, olhar pro celular, se arrumar, tomar café, trabalhar, checar as redes sociais, trabalhar mais um pouco, voltar pra casa, checar de novo as redes sociais, dormir; nesses meios tempos, comer, e revisitar todo esse círculo continuamente.

Penso que a vida é um acumulado de histórias ocasionais e experiências tediosas, e por mais que essa rotina seja mecanizada (porque precisa ser assim), ela precisa existir e é nosso papel não nos deixar nos deixar seguir esse caminho unicamente, sermos mecanizados e descartáveis

A mesmice é até boa, ela indica que você poderá ser útil amanhã, e como uma mãe chata, nos força a continuar a vida quando não queremos. E por mais que hoje em dia nós demonizemos nossa rotina, necessitamos dela para sobreviver.

Talvez o segredo seja separar sonho, vontade e satisfação, afinal, você pode estar muito bem satisfeito aonde está (mesmo que esse não seja o emprego do seu sonho), ter a vontade de jogar tudo pro alto quando essa rotina te entedia e te empurra pro sonho de sumir - imitando o que seu amigo fez e a internet ensinou que devemos sair em mochilão pela Europa atrás de experiências para termos uma vida que valha a pena ser vivida -, mas seguir prazerosamente essa trilha. Tudo ao mesmo tempo agora.

Esse é o segredo, transformar o mundo real - não aquele que as pessoas a cada turno fazem algo de diferente -, em algo prazeroso de se viver por mais chato que seja às vezes.


Vi o vídeo no Amigos do Fórum

Tirinhas da Semana #305

Resenha Filme: Gran Torino


Walter Kowalski (Clint Eastwood) é um veterano de guerra (da Coreia) de origem polonesa que justamente está nesse meio de vizinhos eu não falam inglês, de pessoas sem educação, e de uma neta de piercing no umbigo que não é capaz de entender que seu Gran Torino de 1972 é não só um carro, mas um símbolo.

Walt representa tudo aquilo que o anacronismo representa, aquela armadilha conhecida de cair no meio comum de culpar a geração passada por todos os fracassos bradando de que "no meu tempo era melhor". Walt não entende os tempos atuais, por exemplo, não vê utilidade de ir as Igrejas atuais de padres jovens que "não sabem nada da vida", dos filhos que demonstram que sua casa é um meio de negocio e entende que tradições devem sim serem respeitadas; seu cachorro e ele rosnam para o que não gostam e Walt escolheu ser solitário por opção por causa disso se tornando também preconceituoso e materialista por consequência. Nada lhe agrada. Mas ele não é só durão. Por trás da pose, da imponência caracteristica através do olhar e da atitude de soldado veterano, há também um coração amanteigado que é capaz de ver a justiça e a bondade na frente de seu nariz, só que talvez por sua família se enquadrar justamente nesse parâmetro que ele adotou, esta também é excluída. Neste caso, a solidão e a saudade da esposa falecida transformam uma pessoa em puro amargor.

Por uma série de fatos (incluindo um roubo protagonizado pelo tímido Thao), Walt acaba aproximando dos Hmong e estes pela atitude de Walt contra a gangue que os ameaçava acabam se aproximando ainda mais dele, em outras palavras, o endeusando em gratidão. Walt claro, fica incomodado, mas a convivência forçada também acaba o aproximando, muito graças a Hmong Sue que vê na antipatia daquele velho algo engraçado que não afasta as pessoas, mas apenas como um traço de sua personalidade. Esse engano vai fazendo Walt perceber aos poucos como as tradições são importantes para aquele povo, e que mesmo após tudo o que passaram e o que passam, insistem em manter isso apesar de estarem em um país diferente sendo ameaçados quase que diariamente pela gangue mexicana do bairro.

Na relação de pai e filho (muito do que vimos em "Menina de Ouro"), Walt vai ensinando a Thao os valores que ele tinha vivido, do trabalho e do amor, E nesse amontoado de clichês do último filme de Clint em que ele participou como ator, é em "Gran Torino" que Clint praticamente revisita todas as suas facetas na longa carreira ao mesmo tempo em que a simbologia do final sempre está ali presente. Resumindo, "Gran Torino" acaba sendo um filme que representa tudo aquilo em que ele acredita.

Walt com seus valores inabaláveis, ensinou e aprendeu a conviver e a respeitar as diferenças; na verdade, Walt aprendeu a se importar e viu em seu final de vida aqueles que mesmo sendo tão diferentes, acabam entendendo melhor os valores em que ele tanto acreditava. Por isso ele deu seu valioso Gran Torino 72 a Thao, mesmo não tendo um único laço de sangue, pois esse entende melhor do que qualquer pessoa da sua família que legado e tradição devem continuar, por mais que as pessoas tenham que se adaptar aos novos tempos.

Quando o circo pega fogo: A filosofia por trás do Coringa, o Joker, o Paiaço

No próximo dia 21, o gente boa Barack Obama será oficialmente chamado de ex-presidente dando lugar ao caricato Donald Trump. Mas questões políticas a parte, a polarização criada dando origem a dois políticos tão extremos é marcada por uma velha frase de Newton: toda ação gera uma reação.

Donald Trump e Barack Obama coexistem no mesmo universo e o que eu julgo como boas ações, como o plano de saúde popular Obamacare, e boas decisões, como a aproximação de Cuba, foi justamente o que gerou a reação chamada de Trump. O patriotismo alçou voos ainda maiores, e cada vez mais a favor de medidas protecionistas em vários países, tanto em questões comerciais como sobre o drama dos imigrantes, com o intuito das pessoas protegerem o que julgam ser delas. Resumindo, não há ordem sem "abraçar o demônio",o que explica em grande parte de a corrupção existir em um sistema torto por si só. E como política é um grande show teatral como diz o célebre Frank Underwood, ela vive na sombra das pessoas insatisfeitas.

Sem entrar muito em detalhes da causa que regimes ditatoriais de Fidel Castro, por exemplo, acabam ganhando força baseadas em nacionalismo proporcionando que ele diga o que está bom - sim, ele deu saúde e educação, mas agiu como um pai duro ao castrar a liberdade. A relação entre o Batman e o Coringa é tão rica justamente por gerar um alto nível de debate moral e filosófico a respeito de suas atitudes, se encaixando em discussões sociais e psicológicas a respeito das causas e consequências, e do que é o certo.

E o que é certo? Se o certo é a consequência de subverter o que é errado, então o certo é o certo? Talvez seja por isso que o Coringa esteja no hall dos maiores e mais complexos personagens que existem ao não reduzir a vilania simplesmente por ser, ele optou por não ser mau, mas sim em desmascarar o bem pois para ele nada mais o que existe é a hipocrisia que faz as nossas ações serem motivadas sempre com um benefício próprio. Ao subverter a ordem combatendo o crime, a ação do Batman gerou o Coringa causou um desequilíbrio, e é o contrário disso que chamamos de utopia. A exemplo da frase de Newton, o Coringa nada mais é do que uma reação gerada pelo Batman. Os dois são unidos por um dia ruim; mas separados simplesmente por uma decisão moral que os fazem necessários de coexistir.

É uma das questões que esse vídeo do excelente Wisecrack tenta elucidar, trazendo à tona os fatos que aproximam tanto um personagem como o Coringa a todos nós.

PS: Para os não versados em inglês, ative as legendas e vá nas opções do vídeo para achar as legendas em BR nacional.



O medo da morte: A filosofia por trás de Darth Vader

Apesar de praticamente todos os fãs de Star Wars, incluindo eu, não gostarem da nova trilogia seja pelo exagero de CGI (oi Yoda de plástico), seja pelo bicho esquisito dos três I's (idiota, irrelevante e insuportável) do Jar-Jar Binks, seja pela invenção dos mid-chlorians (que jogam na lata do lixo a mistificação dos Jedis), ou seja simplesmente por texto ruim mesmo; o fato é que essa nova trilogia era necessária para expandir o universo mais mexicano da galáxia ao se dedicar a contar a origem do maior vilão asmático samurai de todos os tempos: Darth Vader.

De onde ele veio? Como ele se tornou assim? Por que Obi-Wan vivia como eremita? Por que esse ódio tomou conta de Anakin? A nova trilogia serviu para esclarecer isso e deixar um pouco mais claro a divisão entre Jedis e Siths em nada mais do que a vida baseada no temor da morte. Em outras palavras, como Yoda alertou nós: o medo é uma passagem para o lado negro.

Salvo os defeitos, cá entre nós que foi justo cair mais uns milhões no bolso do tio Lucas né?

Esse vídeo muito bem feito do Wisecrack contando sobre a filosofia por trás de Darth Vader explica bem isso e vale o clique!

PS: Calma, se você não é versado no inglês, tem as legendas embutidas. Caso elas não saiam automaticamente, clique para ativá-las e logo após nas configurações do vídeo para selecionar o português. Entendido?

Tirinhas da Semana #304

Resenha Filme: Adeus, Lênin


No início do filme, é mostrado que a RDA (o lado socialista, ou oriental) está alcançando finalmente níveis de reconhecimento internacional, a nave (a SOJUS 31) é lançado do solo soviético e Sigmund Jahn é o primeiro cosmonauta da RDA, objeto de admiração da criança Alexander Kerner (Daniel Bruhl, ele mesmo do "Bastardos Inglórios") que assistia o acontecimento pela TV e sonhava maravilhado por ser "levado ao espaço com bravura" o sonho socialista, mostrando que sim, este era um progresso. Mas como todo sistema, nem tudo são flores e os tempos de prosperidade aos poucos iam sendo quebrados. Em 1989 com a comemoração dos 40 anos da RDA, a marcha da apresentação de armas em frente casa dos Kerner, contava com personalidades políticas do calibre de Mikhail Gorbatchov, e agora o jovem e mais maduro Alexander já não via mais com deslumbre o que acontecia, que pra ele, não passava de uma celebração de velhos sacanas sobre si mesmos, contrariando sua idealista mãe, Christiane (Katrin Saß), que era ferrenha defensora do modelo socialista e tinha esperança de dias melhores.

Neste ano o muro cai, começam as negociações para a reunificação e as reformas de Gorbatchov que comandava uma URSS forte, mas isolada e efervescente. A Alemanha Oriental neste ano de comemoração, tinha um povo insatisfeito e os protestos eram cada vez mais frequentes, A natural repressão dos militares tomavam conta das ruas e a mãe de Alexander, que se dirigia de táxi para as comemorações, vê seu filho sendo brutalmente preso e sofre um ataque cardíaco.

Entrando em coma durante oito meses, nesse meio tempo em que Christiane permaneceu no hospital o Muro de Berlim caiu e agora a Alemanha sofre profundas e aceleradas transformações políticas e sociais. Desperta do sono profundo, Christiane não sabe o que aconteceu e Alexander tem a recomendação dos médicos para que sua mão evite totalmente qualquer tipo de exaltação. Como ferrenha defensora socialista que é, Alexander agora se vê em uma encruzilhada e leva sua mãe para casa para protegê-la dessa realidade que se criou.

A partir dai o filme se constrói em torno da bem humorada e absurdamente compreensível ideia de Alexander em, aproveitando da fragilidade da mãe, praticamente recria a RDA como era buscando uma tranquilidade para sua mãe em seus últimos meses de vida, mudando decoração, costumes, comidas e até programas televisivos criados pelo seu parceiro de trabalho Denis era um trabalho extremamente custoso.

A divisão da Alemanha que se iniciou ao final da Segunda Guerra, causou não só um choque político, mas principalmente da cultura dentro das famílias alemãs que agora eram obrigadas a conviver com parentes que não poderiam ver pois estavam do outro lado do muro; e esse talvez seja um dos principais motivos para Alexander ter pegado aversão a RDA. Abandonado por seu pai que preferiu a RFA (o lado capitalista, ou ocidental) quando ainda este ainda era criança, ele vê, agora mais maduro, um sistema que não prezou pelo social do nome, mas sim um país isolado que construiu um muro para delimitar ideologias ao invés de proporcionar mais direitos a aqueles que moravam em seu país, de qualquer um dos lados; impedindo Alex, por exemplo, de rever seu pai Robert (Burghart Klaußner). E essa queda da pátria socialista, que a medida do tempo foi contra aos pensamentos de igualdade em que ela mesmo propagava, assim, caindo esmagadoramente em um referendo popular para a reunificação do país, é a derrocada da principal personalidade que Alex admirava quando criança e que representava a ascensão da RDA diante ao mundo. Sigmund Jahn deixou de ser cosmonauta para virar motorista de táxi, o que consumava o fracassos dos projetos especiais e o desemprego que assolava o lado oriental.

Seguro e extremamente didático (e até atual se formos pensar em repressão e principalmente o que muros podem causar, oi Trump), o filme de Wolfgang Becker, se passa no período entra a Guerra Fria e a reunificação da Alemanha, sempre se baseando em fatos e justificando eles ao longo do filme, assim, não parecendo um documentário ou algo incompreensível para alguém que não vivenciou a época.

Sendo uma rica demonstração cultural e até uma fonte educacional, o filme alemão de 2003 "Adeus, Lênin" soa pelo nome politicamente carregado e até pedante - dado também nosso momento político em que nos afastamos de qualquer notícia sobre para não causar ainda mais náuseas. Contudo, este acaba sendo não só é uma mostra de como o choque da mudança do comunismo com o capitalismo afetou profunda e rapidamente a Alemanha (que se dividiu totalmente em 1959 após uma invasão Soviética dez anos antes), mas uma lição verdadeiramente bem humorada de como qualquer sistema é irrelevante se muros são construídos em volta dele.

Tendo um outro ataque cardiaco após revelar um segredo referente à seu marido e um tanto confusa por ter saído do quarto e visto a transformação que o país dela sofreu, Christiane volta ao hospital e Alex para finalizar o "conto de fadas" que criou ao refazer a Alemanha socialista para a sua mãe, pede à seu amigo Denis para gravar um derradeiro vídeo encaixando a queda do muro ao sonho socialista de sua mãe, proporcionando assim a ela uma morte mais feliz.


E após lançar as cinzas de Christiane aos céus, Alex nas suas palavras derradeiras diz: “o país que minha mãe deixou era um país no qual ela acreditava e que nós mantivemos vivo até o último segundo dela. Um país que de fato nunca existiu desta maneira. Um país que na minha memória estará sempre conectado à minha mãe”.

A lição dos Vikings para os mortos vivos


Ontem foi ao ar o S04E16 de Vikings e lembrei de The Walking Dead.

Calma, os vikings em questão não se transformaram nos mortos-vivos, mas é justamente na inevitável comparação entre uma série a outra que pude mais uma vez perceber o quanto The Walking Dead é uma experiência que acaba sendo frustrante e que ao mesmo tempo traz um grande pesar por poder ser muito mais do que entrega.

No S04E15 All His Angels, Vikings matou seu principal personagem, aquele que simplesmente moveu a série por quatro temporadas e que tem um peso histórico inestimável: o rei Ragnar Lothbrock. Mas como uma série pode sobreviver sem seu principal personagem?

Para quem acompanha a série, a um certo tempo e principalmente a partir do primeiro episódio da quarta temporada iniciada no dia 30 de novembro do ano maléfico de 2016, víamos um Ragnar amargurado. O peso de ser rei, o peso de ter visto seu irmão Rollo ter traído o seu povo, o peso de ver seu melhor amigo matar Athelstan simplesmente porque "foi um chamado dos deuses", o peso de ter seu mito quebrado pela derrota sofrida na França e por ver seus principais sonhos de prover a expansão de seu povo arruinados e brutalmente massacrados nas terras inglesas, inevitavelmente provocou a Ragnar uma reflexão e isolamento.

A S04E10 The Last Ship em seu final arrepiante com a já emblemática frase "who wants to be a king?" foi um episódio decisivo em demonstrar o quanto o poder pode arruinar psicologicamente uma pessoa e o quanto somos condenados pelo mesmo. Ragnar não queria mais esse título, ele foi quebrado por causa dele. Ele não era um mito, era uma pessoa; muito esperta por sinal, mas uma pessoa. Ser um rei era um peso muito grande a carregar e seus louros de glória foram apagados por uma derrota e pelos seus erros em confiar em quem não podia. Ao desenrolar dos episódios seguintes vimos sua derrocada, sua saudade dos tempos mais simples de fazendeiro e sonhador. O desafio de Ragnar era agora desafiar os deuses e ir para Valhalla porque era uma decisão dele, e não do destino de uma batalha. Para ele que teve tirado seu melhor amigo Athelstan, agora a vida espiritual, seja em que lugar, seja qual o deus cristão ou pagão, era em cumprir um objetivo.

Em um roteiro muito bem amarrado e seguro desde o começo, Vikings premia o espectador com uma série sempre eletrizante e sem episódios somente feitos para o entretenimento mais barato, mesmo agora tendo sendo estendida sua temporada de 10 para 20 episódios - o que me causou um medo, mas tenho me render à competência de Micheal Hirst.

Obviamente a morte de Ragnar escondeu um propósito de sacrifício talvez por algo maior, mas não cabe aqui comentar isso. A questão é que sua morte foi sobretudo para mover a história para frente, sem frescuras. Desenrolando um fim de uma era e passando para outra, onde Ivar, Bjorn e Lagaertha assumiriam seu nome e sua glória. O roteiro entregou um Ragnar genial e genioso, fez dele sua principal força, mas com uma agilidade invejável desenvolveu tantas outras histórias paralelas e fortes o suficiente para segurar a série durante muitas temporadas ainda. A série se inspira de forma muito competente em fatos históricos para saber quais são os próximos passos, no caso, a já revelada jornada pelas águas do mediterrâneo até a Espanha muçulmana. Mas para onde mais Bjorn pode ir? Sabemos que os Vikings chegaram a América, mais especificamente em terras canadenses. A história é riquíssima para nos deleitarmos.

E The Walking Dead? Ragnar foi morto em Vikings pois era um personagem suficientemente forte para balançar as certezas que tínhamos sobre a série e movimentar o destino dos outros personagens. Para onde ele vai agora, o que ela vai fazer? The Walking Dead enrola para revelar a já cantada morte de Glenn até a outra temporada, e é incapaz de deixar claro seu próprio intuito de sobrevivência. Em um mundo pós apocalíptico a noção de perigo a qualquer momento é naturalmente altíssima, mas o clã formado por Rick, Michonne, Carol e Darl é supostamente invencível.

Não prego a morte de Rick, mas bem que a série podia apelar pra mortes significativas e para um roteiro mais ágil em desenvolver seus núcleos de forma paralela, e não isoladamente em cada episódio. Mas enfim, essa é uma contínua frustração ao longo das sete temporadas, de uma série que é capaz de entregar momentos simplesmente épicos e uma dezena de episódios frustrantes, ficando cada vez mais longe de uma qualidade que tantas e tantas outras séries tem mostrado ter. Talvez caiba uma reflexão para Greg Nicotero, como Ragnar Lothbrock teve a sua sobre mortalidade.

A solidão de Travis em Taxi Driver


Filmes que são rompem a barreira do tempo são aqueles que se renovam a cada vez que o vemos, quer dizer, que para cada um esse tem uma interpretação diferente. E talvez um dos filmes que mais bem exemplifique bem essa dualidade seja Taxi Driver. Scorsese na sua obra máxima fez um filme em que o roteiro só dá andamento ao mesmo, com começo, meio e final; e o que você tira dele é o que acaba importando no final das contas.

"Ele é um homem solitário desesperado em provar que está vivo".

É só olhar para o famoso pôster de Robert de Niro com as mãos nos bolsos andando cabisbaixo meio que sem rumo, para entendermos do que se trata e qual é a reflexão que o roteiro tenta nos passar: até que ponto a solidão de um homem pode quebrá-lo?

Travis é um ex-combatente do Vietnã (suposto, vou explicar o porquê) que talvez envolvido num choque pós traumático, sofre com uma insônia violenta e constante. Para curar sua insônia ou não, Travis escolhe arrumar um emprego como taxista em Nova Iorque, claro, no período noturno. Putas, bebida, fumaça de cigarro, crimes, sujeira. A limpeza moral está cada vez mais distante e Travis só observa tudo rodando pela cidade. 

“Um dia uma chuva de verdade virá e levará toda essa escória para fora da rua“

Mas eis que nessa direção sem rumo adentra uma passageira, se trata de uma prostituta de apenas 12 anos, Iris (Jodie Foster). Como proceder? Talvez pela moralidade que lhe resta e ainda mais inconformado no que a noite é capaz de oferecer, Travis se torna obcecado em "salvar" a criança daquilo tudo pois ela representava o que era mais podre de toda essa decadência - mesmo que ela relutasse a tal julgando que seu cafetão era sim uma boa pessoa. 

Enquanto Iris (Jodie Foster) fica intrigada com Travis, em contrapartida ele se envolve com Betsy (Cybill Shepherd) e identificados pela solidão que lhe cercam de formas diferentes os dois acabam se aproximando e esta aceita sair. Travis leva Betsy para um cinema, mas para ver um filme pornô. Inadequado? Não para a inocência quase que absurda de Travis em apresentar para ela a única parte do mundo que conhece. A solidão mostra a inabilidade principalmente de Travis em parecer... humano. 

Há dois tipos de solidão, a emocional e a espiritual. A física é aquela necessária, é quando precisamos de um tempo para respirar sozinhos e ficarmos com os nossos pensamentos; a emocional é aquela que nos "quebra", que quase como um vírus se alastra e transforma a sociedade e a perda de alguém em uma bolha que sem querer nos faz querer se isolar cada vez mais de tudo o que nos cerca. Esse tipo de solidão nos faz sentir que não nos encaixamos em nada mais fora dessa bolha e a partir daí é um pulo pra decidir o que presta pra nós ou não, trocando a aceitação pela comparação.

Isso constantemente fazemos por causa do amor, quebrado ou não correspondido, leva um tempo para nos recuperarmos. Mas a sociedade adoentou Travis, a régua moral que ele impõe depois do isolamento é sobre certo e errado, em princípios morais de verdade. Assim ele se revolta contra essa solidão, tenta fazer algo por ele e por alguém como se aquilo desse sentido para a sua vida agora. É essa a régua moral, errada, mas certa para ele. Ele se revolta por não entender mais o sentimento alheio, se revolta contra a sociedade que o adoentou dessa forma. 

Lembra que questionei se ele era um ex-combatente do Vietnã? Há vários indícios, passando pelo seu físico de pombo até a justificativa sempre vaga sobre o que ele passou na guerra, então seria um personagem criado a partir de sua solidão? Tanto que ao final se preparou para uma guerra que talvez ele nunca tenha participado, a famosa parte "you talkin' to me?". A desilusão a respeito de todos lhe afeta ferozmente, e alegar ser um ex-combatente meio que dá um sentido mais prático a essa decadência moral que ele vê, tanto política quanto social. Como se poupasse o trabalho de ter que usar muitas palavras. 

Travis tem insônia porque não vê sentido em nada do que vê, trazendo junto sempre um sentimento de não pertencimento. Travis era alguém que procurava algo, ou simplesmente desistiu disso. Creio que ele cansou de ver o tempo passar numa dimensão linear. E é justamente por isso que torna Taxi Driver um filme atemporal, intacto; cabendo a cada um uma interpretação pessoal sobre a jornada de Travis Bickle e do o porquê ele faz o que fez.

"Em toda rua há ninguém que sonha em se tornar alguém". 

A solidão é algo permanente, como a escuridão; essa inexistente sendo apenas uma ausência de luz. Solidão, como a escuridão de nós mesmos, é permanente e inexistente; essa apenas uma ausência de companhia. O norte, o motivo, é o que nos faz tornar vivos. Travis não tinha nada disso e se perdeu.

Tirinhas da Semana #303

Puta que pariu! Finalmente passamos por um 2016 um tanto mortífero e interminável, recheado com aquele calor do inferno e um sabor de crise de ter que parcelar aquele Magnum maroto em 2x.

Mas 2017 tá aí, um novo ano e uma renovação. Além de um ano cheio de realizações e que consigamos realizar alguma meta de vida que nós temos, desejo sobretudo que esse novo ano para nós, como todos os novos e velhos anos, sejam cercados de felicidade, de pessoas inesquecíveis e de bons momentos que possamos lembrar com carinho.

E segue o jogo e o Descafeinado!