Her é aquele filme para MIM e para VOCÊ

quarta-feira, maio 17, 2017


Certeza, nove entre dez postagens em páginas românticas no Facebook - independentemente do teor delas - é daquela que trata sobre a nossa sofrência diária do "amor idealizado". Aquele cara ou garota que compreenda o verdadeiro problema das coisas, entenda o valor que nós temos, responda instantaneamente as mensagens do WhatsApp que a gente manda para ontem, seja perfeitamente compreensível com os ciúmes, e tenha os mesmos gostos que nós - isto é, empunhando um sabre de luz se formos tratar do público a qual pertenço.

Entretanto se são as imperfeições que fazer o ser humano ser autêntico e por elas determinamos o que é certo e errado para nós e da forma em que agimos com os outros, isto é, a velha empatia que costumeiramente esquecemos de praticar - e aí voltamos ao ponto das imperfeições. Viu? Eu e você somos nada mais que um círculo vicioso de erros e acertos, consigo e com os outros. Se a perfeição é inalcançável, por quê então devemos idealiza-la?

Essa é uma pergunta que intriga a nós mesmos e parte delas é confrontada e questionada no espetacular longa "Her". Disponível na Netflix desde o começo do mês (acredito eu, me corrijam se eu estiver errado) e dirigido e roteirizado por Spike Lee lida com uma questão atual e permanentemente presente: a solidão.

Agora apoiada na tecnologia, o amor idealizado mais comumente exposto em páginas de livros e letras de músicas, tem na internet agora sua maior voz e sua maior força. Agora acreditamos que nosso grito será ouvido e compreendido - mesmo que gritemos para ninguém no final das contas -, afinal, a tecnologia encurta distâncias e aquele amigo ou interessado crie coragem e disposição para perguntar como você está (e eu admito, já tive essa fase; quem nunca?). Porém, é justamente por essa busca e satisfação do ter o seu desejo atendido que caímos na armadilha de idealizarmos somente o que é perfeito para nós e esquecer não só a própria satisfação com o que é, mas sobretudo em se preocupar na palavra difícil que é conviver.

Num mundo futurista que não diz a data e de uma IA extremamente avançada, o personagem Theodore (magistralmente interpretado por Joaquin Pheonix) é um ser solitário que encontra em uma OS com voz de Scarlett Johansson a solução de seus problemas. Já tratei isso aqui na resenha de "Her" que fiz aqui pro Descafeinado. Mas sintetizando novamente, essa OS - como aquela que em menor grau está nos servindo nos Androids de todos os dias - aprende com Theodore seus gostos e ele se apaixona por Samantha. No entanto como inteligência artificial que é, ela se desenvolve como qualquer outro tipo de inteligência e passa a querer outra realidade. No caso com outras OSs como ela. De forma simples e clara, Theodore procurou atender sua necessidade e não mudou, sua amada aprendeu e o deixou para trás. Artificial ou não, inteligência é inteligência, e a natural arte do ser humano em falhar na empatia e reflexão sobre si mesmo nos leva a pensar na extinção ou na quebra de relacionamento mesmo.

Parece até proposital a escalação da Scarlett Johansson para fazer a voz da Samantha se formos pensar em que ela é o símbolo do imaginário dos nerds que molham as calças quando veem a Viúva Negra na telona. E aí Adam Sandler vem a mente.

Seus filmes ruins são tão incompreensivelmente vistos por serem nada mais que baseados no esteriótipo do "cara fracassado ou azarado que não sabe falar com garotas acabar ficando com aquela garota gostosona do filme", em outras palavras a Scarlett Johansson. Tais são tão vistos por sermos esse cara ou essa garota, são tão vistos por fazerem rir de nós mesmos - mesmo que essa piada seja bem ruim. Adam Sandler e Netflix sabem disso, mesmo que incidentalmente e aí temos a notícia da renovação do contrato do ator com o serviço de streaming por mais quatro filmes. É simplesmente "esfregar" na cara a verdade.

É comum vermos por aí as pessoas praticarem a máxima do "sou assim e ninguém, nem nada vai me mudar". Sim, até concordo que isto é autenticidade no exercer da liberdade de opinião, mas como vemos na polarização política por exemplo, você está mais fadado a ser um idiota do que alguém ponderado. Melhor então ser "acusado de ficar em cima do muro" e parar de esperar que o garota dos meus sonhos seja aquela que empunhe um sabre de luz.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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