Resenha Filme: Dr. Fantástico


O ano em que "Dr. Fantástico ou Como aprendi a parar de me preocupar com as bombas" foi feito era 1964, e essa época é também conhecida como o auge da Guerra Fria pois está localizada logo após a três acontecimentos fundamentais para o mundo ocidental: a construção do Muro de Berlim pelos soviéticos em 1961, a Crise dos Mísseis que ameaçou o mundo a entrar de vez numa guerra nuclear em 1962 e o assassinato de John Kennedy em 1963 por motivos que até hoje geram discussões. 

Com a crença de que o final do mundo poderia acontecer a qualquer momento com uma ligação do temido telefone vermelho entre o Washington e o Kremlin negociando vidas em troca de uma guerra ideológica, a pergunta que desperta nossas mentes hoje com Trump e Putin sentados nas cadeiras dos países mais poderosos do mundo é que essa Guerra Fria está longe, mas muito longe de terminar.

Aliás, é até irônico que Stanley Kubrick tenha se proposto a fazer uma comédia ao lado de Peter Sellers. Conhecido por ser insuportável, mal-humorado e antipático atrás das câmeras, foi justamente o seu lado perfeccionista que moldou "Dr. Fantástico"  a ser irônico como é. Irônico, não engraçado. 

Baseado no livro "Red Alert" de Peter George, o filme seria um drama político inicialmente, mas pelas mãos de Kubrick e sua visão diferenciada acabou virando uma comédia ácida sobre a tensão entre os dois países e essa decisão não poderia ter sido mais bem sucedida. 

O que acontece é que o brigadeiro Jack Ripper (Sterling Hayden) tem a certeza de que os comunistas estão envenenando a água do mundo inteiro (um boato famoso da década da 50) e que é preciso que os militares como ele tomem a frente e acabem com esses comunistas safados de uma vez. Com isso, ele ordena o piloto do bombardeiro, o major T.J. King Kong (Slim Pickens), ordenando um ataque nuclear não autorizado a URSS. Chegando o absurdo no Conselho de Guerra e no presidente Merkin Mufflin (Peter Sellers), o capitão Lionel Mandrake (Sellers novamente) consegue impedir que o ataque aconteça, mas o contato com um dos cinco bombardeiros autorizados falha e a bomba é lançada desencadeando a "máquina do juízo final".

"Dr. Fantástico" tem a interpretação da vida de Peter Sellers que interpreta não só um, mas três personagens ao mesmo tempo. Um feito assombroso pra época denotando o monstro de ator que ele era. Além do capitão e presidente norte-americano, ele interpreta também Dr. Strangelove, um nazista preso a uma cadeira de rodas e cooptado pelo governo americano para produzir suas armas nucleares e que tem uma doença incontrolável no seu braço para fazer sua saudação para o Führer. Uma piada pronta.

Com um roteiro esperto montado quase que todo em cima de boatos, cheio de diálogos emblemáticos e com um humor mais do que sarcástico como por exemplo na cena em que o embaixador Russo Alexi de Sadesky (Peter Bull) entra na sala e se engalfinha com o general norte-americano que ordenou o ataque, logo alertados pelo presidente americano, que diz:

"Senhores, não briguem, aqui é a Sala de Guerra"

Não há ironia maior. 

Se o genial "O Grande Ditador" de 1940 de Chaplin tenha sido o grande instrumento criticando o Nazismo, "Dr. Fantástico" é o porta-voz criticando acidamente talvez o momento mais ridículo da história da humanidade, aonde duas superpotências se armavam até os dentes para manter a paz. Portanto, não poderia não ter sido uma comédia mesmo!

Rodado em preto-e-branco, o filme dá uma risada e um tapa na cara dos caricaturais e medíocres governantes e militares que naquela época ameaçavam começar uma Terceira Guerra Mundial simplesmente por fissuras e equívocos governamentais e ideológicos, seres esses que ainda estão espalhados pelo mundo e que graças a diplomacia literalmente não jogam bombas um nos outros.

PS: Fora que Kubrick foi capaz de transformar o trailer deste filme em uma outra obra de arte. Assista e concorde comigo:


Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Voltando
Next Post »
Comentários
0 Comentários
0 Comentários