Resenha Cinema: Manchester à Beira-Mar


É normal a gente contar de alguma situação nossa e levar um "larga de drama" na cara. Por mais que realmente as experiências da vida mostrem que realmente a dor que você julgava sentir não passava de mais um arranhão - e é dessas cicatrizes que somos feitos -, a dor é algo que é somente seu. E por ser tão pessoal, não é culpa sua e nem da outra pessoa em não compreender exatamente o que lhe está acontecendo; de um lado, você não entende a própria dor; de outro, a outra pessoa não entende a gravidade disto em todas as suas dimensões. 

Mas por ser algo tão pessoal e intransferível como uma senha, é a dor causada pelas sombras de nosso passado que não é perdoável até que você sinta isso, isto é, por mais que o mundo inteiro nos perdoe e que o tempo faça isso parecer passado como o é no calendário, é somente o próprio perdão provocado pela própria decisão de parar de se martirizar que te farão seguir verdadeiramente em frente, enterrando mais um capítulo desagradável em nossas vidas. 

"Manchester à Beira-Mar" a primeira vista é o tipo de filme de roteiro simples que automaticamente nos faz pensar em uma redenção, pode passar naturalmente desapercebido. Claro, estamos em janeiro, época de Oscar e que na maioria de seus indicados são filmes feitos para agradar a Academia (como La La Land e suas quatorze indicações), no entanto, o que traz toda essa carga é a montagem do filme através de seus constantes e impactantes flashbacks que transformam o filme no supra-sumo do que é direção, roteiro e arte; um jogo executado por um elenco incrível.

Lee Chandler (Casey Affleck) é um zelador eficiente e antissocial que vive uma rotina desagradável de um conjunto habitacional em Boston, mas que em virtude da morte de seu irmão, Joe (Kyle Chandler) é forçado a retornar à sua cidade natal de Manchester para lidar com a burocracia habitual que envolve a morte de algum parente, e como se não bastasse, assumir a guarda de seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges). Contudo, essa guarda envolve também o retorno de Lee a Manchester, lugar de um trauma horrível na vida dele.

Contar do trauma seria tirar um dos encantos do filme, mas "Manchester à Beira-Mar" gira em torno disto, da dor causada pela morte e sobre o quanto podemos nos sentir estar mortos, mesmo vivos, quando o erro cometido é irrevogável para si. 

O sentimento de empatia causado pela atuação sincera de seus atores é uma constante entre seus poucos e bem colocados personagens. Seja na breve cena de cinco minutos em que a ex mulher dele Rudi (Michelle Williams) aparece numa conversa com Lee (e que me pergunto até hoje se aquilo mesmo estava no roteiro, devido a sua carga dramática impecável), seja para com seu sobrinho Patrick. Que num primeiro momento é somente mais um jovem seguindo sua vida normalmente com seus namoricos e trinos de hóquei, mas que depois de ele ter seu estado de choque despertado por um freezer, passamos a compreender como podemos lidar com a mesma dor de formas diferentes. 

Lee procurou se fechar, Patrick buscou a inércia, Rudi seguiu a vida carregando o passado.

Numa aura de silêncio constante em que apenas os olhares, os longos diálogos e a dramaticidade carregada no olhar de Lee (numa atuação simplesmente espetacular de Casey Affleck que lhe rendeu uma indicação justíssima ao Oscar), o filme carrega um aperto imensurável. Mas o incompreensível Lee, mesmo no seu olhar que evita qualquer tipo de contato, nas brigas de bar que se envolve sem nenhum motivo (talvez para confrontar a dor que sente nele mesmo), e nas as mãos nos bolsos no jeito sempre retraído (conformado em ter que ver a vida ter que continuar no alto de sua inteligência que o diz que tem que ser assim); a fuga da dor carrega o filme e ela carrega a nós mesmos, na empatia que Lee nos provoca simplesmente pelo seu talento em ser sincero em seu olhar.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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