Resenha Série: Luke Cage (1ª Temporada)


A Marvel sempre teve consigo o charme de ter heróis que são mais aproximados a humanidade, quer dizer, gente como a gente. Claro que vamos deixar o Thor um pouco de lado, mas a questão é que todos os outros tem em comum entre si o heroísmo como um fardo a ser carregado, algo que nós, guardadas as proporções, também carregamos. 

O que quero dizer, é que por mais que o Tony Stark tenha o cu entupido de dinheiro e o Peter Parker seja um pobretão fracassado, a humanidade que eles carregam dentro de si faz o suposto heroísmo ser algo que se torna indefinível. Afinal, o que ele é? Algo pra alimentar o ego? Algo que te faz ser prepotente? Algo que te dignifica? Algo que te enfraquece e te fortalece ao mesmo tempo? Talvez seja tudo isso. 

É ai onde se encaixa o grupo de heróis urbanos da editora formado por Demolidor, Justiceiro, Luke Cage, Punho de Ferro e Jéssica Jones. Criados também por Stan Lee, eles são meio que aquelas pessoas que inspiradas por alguém maior resolveram encarar um sistema falho e quebradiço em que eles vivem pra fazer justiça por suas próprias mãos ou simplesmente resolver seus problemas. E num placar de 3x0, a Marvel poderia muito bem se assentar numa fórmula que estava dando certo com Demolidor e Jéssica Jones, mas com Luke Cage ela resolveu virar o jogo novamente e jogar com um novo estilo de narrativa. 

Em seus 13 episódios, Luke Cage (Mike Colter) apresenta a história um homem que na busca de encontrar seu norte, resolveu fazer justiça com as próprias mãos por ver sua nova vida impedida de ter tranquilidade pela constante violência do seu bairro. A habilidade de ricochetear balas é um mero detalhe. O que importa aqui é o próprio Luke e aonde ele vive, um lugar que é rodeado de injustiça e corrupção, mas também lotado de pessoas que tentam fazer o certo diariamente. Como no bairro que a gente vive. 

E essa é a grande diferença de Luke Cage para as outras séries do estúdio. Ela não é construída necessariamente em cima dele e de quem ele quer liquidar, o que era o caminho natural, mas sim sobre o Harlem, sua cultura e suas pessoas. Sobre o que o negro norte-americano é. E para isso precisamos de um pouco de contexto:

Luke Cage foi criado nos anos 70, talvez o auge da cultura negra norte-americana, onde o país via surgir um fenômeno conhecido com "Blacksploitation", um movimento cinematográfico realizado por atores e cineastas negros feito para negros, reflexo claro de um país ainda fortemente segregado, aonde tanto negros e tanto brancos (até hoje) não acabam tendo o mesmo espaço. Aproveitando-se desse momento, Stan Lee cria Luke Cage com a mensagem forte de ser sobre um "herói negro à prova de balas", como a Netflix faz questão de ressaltar na idolatria dos habitantes do bairro por Luke, que veem nele uma imagem de justiça, por não confiarem nem um pouco na polícia, ou sistema no caso. 

Bom, pouco vimos de Hell's Kitchen, mas o Harlem é muito vivo. E uma boa mostra disso é que até a vilania é dividida em vários personagens, como se ela crescesse e amadurecesse, se mostrando cada vez mais enraizada a cada passo que Luke dá em busca de sua redenção. Que no final das contas também sofre por um sistema totalmente falido, dando razão à super humanos como ele de existirem. Nos sentimos tão frustrados quanto ele ao ver que (parafraseando a Hydra) "aonde se arranca uma cabeça, surgem duas".

Mas nem tudo é perfeito, infelizmente pareceu que os roteiristas fizeram bastante esforço para preencher os 13 episódios devido à seu começo muito parado, em suma, o que foi resolvido em 13, poderia ser em 10; e isso me frustrou um pouco, mas nada que chega a atrapalhar. Ao chegar ao final da série percebi que isso acaba se justificando e valeu à pena. Só que esse alongamento acaba fazendo mais mal que bem às séries da Marvel, já que poderiam ser facilmente resolvidas por estarem hospedada na Netflix, e não numa rede de televisão aberta condenada a avaliação da audiência. 

Resumindo, o saldo da parceria entre Marvel e Netflix é mais positivo do que negativo mais uma vez. Luke Cage não se trata de heroísmo, trata-se da tentativa de ter uma redenção, da revolta de um cidadão e da sobrevivência à injustiça. E apesar de ser uma série parada para os padrões da Marvel e que pode entediar quem espera que uma série de super-herói seja mais heroica, Luke Cage é uma serie extremamente competente. Ela não é melhor que Jéssica Jones e nem Demolidor, mas o mais urbano dos heróis da Marvel se mostra muito mais forte do que aparenta, mantendo acesa a curiosidade pela série do último dos Defensores, Punho de Ferro.

Tirinhas da Semana #297

O que passa pelos meus fones #140 - Faith No More

No começo do mês em seu canal no YouTube, o Faith No More disponibilizou mais um clipe divulgando seu excelente trabalho mais recente, "Sol Invictus".

Muitos reclamam de que o Faith No More ao longo dos anos (principalmente com a saída da figura guitarrista Jim Martin) perdeu sua característica mór que era a descontração. Mas na verdade o que se viu depois da saída de Martin, foi um longo processo de experimentalismo natural, em que um talentoso Mike Patton assumiu de vez um papel importante nas composições tornando a banda mais pesada, sombria e experimental (claro). Esse foi um processo que veio de muitos anos, não somente de agora, portanto não entendo porque do mimimi. "Sol Invictus" recomeçou aonde "Album of the Year" parou a 15 anos atrás e que é fá também dessa época viu uma banda afinadíssima, que não, continuou a criticar.

A verdade é que "Cone of Shame" é disparado uma das melhores faixas do álbum.

Tirinhas da Semana #296

O que passa pelos meus fones #139 - Gojira

Sem enrolar muito pra falar do Gojira (já que entendo que a banda dos franceses é uma das melhores da atualidade), vamos a faixa de abertura do último álbum da banda chamado "Magma" (e que resenhei aqui no Descafeinado). 

Simplesmente "The Shooting Star" é uma das melhores faixas do álbum e exemplifica muito bem essa criatividade e a rasgação de seda que faço pela banda. 

A psicodelia do clipe só corrobora a qualidade da música.



E se Tim Burton invadisse a cultura pop?

E se Tim Burton invadisse a cultura pop?
Misturando o gótico ao fantasioso e o terror a inocência, inquestionavelmente Tim Burton marcou a cultura pop tal qual a conhecemos hoje. E mesmo que ele na minha opinião ele tenha se reduzido a somente um diretor estiloso, sabemos bem que essa característica é ímpar e inimitável; o que faz Tim Burton continuar sendo um dos diretores mais requisitados da atualidade e faz pessoas como eu prestarem atenção à qualquer coisa que ele se meta a fazer.

O ilustrador Andrew Tarusov também sabe bem disso e exemplifica muito bem como o figurino empregado pelo diretor faz qualquer coisa ficar legal. Como os super-heróis da Marvel e da DC e as delicadas princesas da Disney.



Resenha Cinema: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares


Baseada no livro homônimo de Ramson Riggs, "O Orfanato tralala" (vou chamar assim porque eu quero e porque o título é longo pra cacete) é um filme roteirizado por Jane Goldman e (vamos ao que mais interessa) dirigido por Tim Burton. E é aí que mora o maior problema e o maior mérito do filme, mas calma que vou explicar o porquê.

A história gira em Jack Portman (Asa Butterfield) e seu avô, Abraham Portman (Terence Stamp). Jack é um típico adolescente loser e sem muitas perspectivas de vida que trabalha diariamente em uma loja de conveniência e tem dificuldade pra falar com garotas. Bom, tudo isso é contado mais rápido do que a Coca no braço da cadeira que estava sentado. O fato é que quando Jack era criança, seu avô lhe contava histórias fantásticas sobre crianças (tã dã) bem peculiares, tal qual uma que é leve que nem o ar e outra que é invisível, e lhe mostrava até fotos sobre isso. Fascinado sobre as histórias de seu avô, Jack as mesclava em sua realidade e como qualquer criança, sonhava em um dia ir para a ilha Galesa que seu avô apontava no mapa dizendo-lhe que esse Orfanato estava ainda lá.

O fato é que todos nós tivemos esses sonhos lúdicos, é uma das partes que nos fazem criança. Mas aí a gente cresce e a medida em que a realidade vem à tona, se percebe o quão tolas podem parecer essas histórias de dormir que nosso avô nos contava. Então Jack vai se despedindo dessa realidade, mas confrontado pela morte de seu avô, vê que esse sonho em que ele viveu durante parte da sua infância é o que ele precisa pra poder viver - já que seus pais pouco colaboram pra isso, sendo mais fúteis que o caderno da Hello Kitty.

Se é que dá pra dizer que o filme trabalha alguma coisa, o Orfanato de Tim Burton remete à essa época lúdica nossa de sonhos e fantasia, e como precisamos de um objetivo pra poder viver. No caso, o lugar que seu avô disse estar o Orfanato, é o lugar em que ele sente que precisa ir, já que não é só um adolescente perdido, mas como não tem muito o que fazer ali aonde está.

A questão que "O Orfanato tralala" é aquele filme que só Tim Burton poderia fazer, como a sua revisitação a história da "Alice No País das Maravilhas". Sua estética gótica e fantasiosa marcante aliada as lições infantis, marcou os anos 90 com dezenas de filmes do calibre de "Batman", "Edward Mãos de Tesoura", "Beetlejuice" e "Sweeney Todd", por exemplo, tornando a experiência de um bom roteiro única, já que essa estética de Burton é impossível de se reproduzir. A partir do remake da "Fantástica Fábrica de Chocolate" (que é deveras divertido porque o original era tanto quanto) senti que a escalada do diretor tinha um viés de queda. Não que fazer algum remake é ruim e Burton era esse cara capaz disso em relação à aquele clássico filme, contudo, esse foi o principal significado que o filme me passou e o tempo só confirmou o meu pensamento: Tim Burton nada mais virou que um cara que cuida das alegorias da escola de samba em vez do enredo - o que um diretor deveria cuidar primeiramente.

E assim vemos Tim Burton no automático, refletindo até em seus atores como Asa Butterfield (sim aquele "Menino do Pijama Listrado) e atrizes como Eva Green (uma das prostitutas de "Sin City") a Srta. Peregrine no filme, que são mais carismáticos que a pedra da casa do Patrick. Mas nada é tão decepcionante quanto os furos óbvios que até o mais distraído percebe, como quando Emma (Ella Purnell), a garota mais leve que o ar, mergulha com Jack aproveitando o peso de seus botas, mas logo depois nada com ele como se elas não pesassem nem uma grama; ou mais pro final quando o mau encarado Enoch (Finlay McMillan), que é capaz de reviver qualquer ser lhe construindo um coração, monta um exército para combater o vilão Barron (Samuel L. Jackson), sendo que o filme em si nem explica a rapidez com que ele é capaz de fazer tal coisa.

Obviamente optando por um caminho menos alinhado com o terror e mais direcionado a algo "sessão da tarde", Tim Burton apela pra personagens rasos em um filme rápido e sem carisma, como se fosse seu grupo de super-herois dirigidos para os pequenos. O seu "Orfanato da Srta. Peregrine" é até um filme que entretém por ser de... Tim Burton (e ele é legal pra caralho), mas muito comedido para a filmografia do mesmo - até é um filme feio se você comparar com outros do mesmo diretor. E como qualquer filme nada, esse é um filme esquecível assim que você sai do cinema, o que é muito pouco pra o que eu já vi dele. Mas enfim, enquanto essa preguiça durar, Burton continuará a ser um mero carnavalesco do cinema.