Resenha Cinema: A Piada Mortal


Primeiramente em "A Piada Mortal" não temos uma adaptação, e sim uma transposição, como deixei claro no início da resenha. Obviamente quem gosta da cultura pop sabe bem que mexer em histórias clássicas das HQs é mexer em vespeiro e qualquer tipo de alteração pode levar o roteirista à ser enforcado em praça pública, vide Zack Snyder, que se teve seu filme cheio de falhas, ao menos foi corajoso para colocar suas ideias diante aos fanáticos e é por isso é ainda mais amado e odiado. E é também aí que "A Piada Mortal" desperta uma questão interessante sobre as diferenças de adaptações e fidelidade.

Pense comigo, será que você iria querer que num sonho molhado a "Guerra Civil" da Marvel fosse transportada fielmente as telonas, sem tirar, nem por? Claro que numa animação baseada numa HQ não espero nada além do que "A Piada Mortal" entregou, um roteiro primoroso, mas o mesmo que li nas páginas da HQ e ganhou vida nas telonas. Sai com um sentimento de "tá, ok", meio gosto de pão amanhecido aonde o ingresso poderia ser revertido para o DVD e pizza portuguesa. Sei lá.

Bom mesmo é quando você sai da sala com milhares de discussões dentro de si, bom mesmo é quando saio da sala tentando externar tudo o que penso para vocês aqui no Descafeinado. Se um filme fosse realmente fiel a HQ ou livro como é largamente cobrado em fóruns da internet, antes e depois, será que seria bom a nós mesmos? Bom é causar discussão, mas bom mesmo é uma mídia se sentir livre para complementar uma história já lida anteriormente, como "Guerra Civil" que apesar das claras diferenças entre o filme e a HQ, se complementam e compartilham da mesma essência; ou você acha mesmo que "Senhor dos Anéis" foi uma péssima adaptação de um livro de mais de 1200 páginas de um escritor notadamente detalhista como Tolkien?

Outras mostras claras são "Game of Thrones" e "The Walking Dead", enquanto a primeira nas temporadas iniciais resolveu seguir a risca aos livros para depois se distanciar e provar que o nível de excelência se mantinha o mesmo, "TWD" apenas pega emprestado a essência e referências nas suas HQs, como a do olho do Carl, para fazer os fãs consumirem justamente as duas coisas. Uma amiga minha após ver GOT resolveu ler o primeiro livro da série e me disse que era exatamente o que estava lá, então cadê a graça? Aí se entende o distanciamento da série dos livros, até porque eles precisam continuar a produção sem esperar a boa vontade do velhinho George R.R. Martin. 

Para deixar claro de novo como se o negrito que coloquei não fosse suficiente, não estou criticando a animação e muito menos não estou atrás de filmes que me desagradem só pra criticar aqui. Não. Como disse, não esperava nada além do que a animação entregou, mas a exibição das mesmas animações nos cinemas a preços salgados (paguei R$40) traz à discussão de como é idiota o mimimi de adaptações "que não são fieis" e a reflexão da necessidade desse show acontecer. 

Enfim... Vamos a critica.  

Após um prólogo sem muita graça mostrando Bárbara Gordon, a filha do Comissário Gordon, ainda como Batgirl, mas importante para situar o espectador mais leigo sobre quem é realmente a Bárbara Gordon ao mesmo em que adiciona tempo a animação propriamente dita; mergulhamos em uma grande história em quadrinhos animada na telona do cinema. E que lindo que fica!

"A Piada Mortal" através de flashbacks espalhados em suas páginas e cenas, revela a tragédia de um péssimo comediante stand-up que não consegue sustentar sua amada esposa grávida e acaba se envolvendo meio que a contragosto em um roubo a uma fábrica de baralhos que trabalhava. Obviamente o plano pé-de-chinelo dá muito errado e surpreendidos pela polícia, os comparsas são mortos e o agora Capuz Vermelho se encontra frente a frente com o temido Batman, mas tremendamente assustado e sem enxergar quase nada, assim bem tosco, antes que o morcegão possa pegá-lo ele cai num tonel de produtos químicos e acaba se "transformando" no Coringa, o Jóker, o Paiaço. Mas voltando à realidade, na história violenta contida nos traços de Brian Bolland, após o prólogo, o Batman aparece indo ao Asilo Arkham para dialogar com seu principal inimigo para tentar dar um "fim" a espiral de violência que marca a convivência de ambos, mas ao interrogá-lo, ele descobre que o Coringa fugiu do sanatório.

A real aqui é a máxima que para se render a loucura basta um dia ruim. Esse é o argumento do Coringa e principal ponto para provar para o Batman de que eles dois, não são nada diferentes, afinal, bastou um dia ruim para os dois se transformarem no que são. E para provar seu argumento, o Coringa escolhe sequestrar o Comissário Gordon, que para todos é o exemplo de correção e honestidade transformando seu dia em um verdadeiro inferno. 

O roteiro irretocável da HQ de Alan Moore se apoia na pergunta de até aonde um homem pode aguentar sem surtar. A cultura pop é apoiada nisso, desde o icônico filme "Um Dia de Fúria" aonde o personagem estrelado por Michael Douglas sai do carro com uma 12 totalmente surtado até a construção do sociopata Walter White que fez tudo o que fez sempre apoiado no argumento da família, os dois tem em si contidos o mesmo argumento do Coringa, boas pessoas que tiveram dias ruins, os piores das suas vidas. Aí é importante percebermos que nós também não somos distantes de um Coringa, bastando uma decisão de chutar o balde escolhendo destruir nossas vidas em favor de uma ordem que não acreditamos mais existir. 

Ele é mau porque é mau? A verdade é que o Coringa, como sabiamente disse Alfred no "Cavaleiro das Trevas" de Nolan, que ver o circo pegar fogo, se afundando num abismo moral e renegando qualquer tipo de entendimento sobre a ordem real das coisas; para ele é tudo sem sentido algum e talvez por isso ele seja tão perigoso. Ele é amoral e não escolheu não ter medo, apenas se entregou a pura anarquia transformando toda essa ordem em uma grande piada. 

A HQ é responsável por expandir o breve entendimento da maldade além de nos mostrar de que as pessoas se tornam assim pelo ambiente que as cerca. Ou como diria Rousseau: "Nenhum ser humano nasce mau, a sociedade o corrompe", ideia que leva diretamente a um dos entendimentos do que é um sociopata. Não é uma maldade propriamente dita, mas sim o distanciamento do bem. 

O corrompimento causado por um Sistema enraizado nas moralidade que nos diz o que é bom e o que é ruim e que fez Walter White se endeusar durante as cinco temporadas de Breaking Bad, torna a culpa motivo de punição, alheia e a nós mesmos, aliando a tragédia aos dias ruins das nossas vidas de areia movediça. Isso dá total sentido a linha de pensamento do Coringa de que dado ao ambiente que nos cerca, nunca deveríamos ser diretamente responsáveis pelos nossos atos de loucura. Loucura essa que o Batman se entregou ao ver a morte dos pais e que fez ele se entregar à piada no final da animação, que como na HQ, não deixou clara se o Batman mata ou não o Coringa colocando por terra seu guia moral, mas ao mesmo tempo, também deixou mais clara a ideia da suposta morte do vilão.

Resumindo, "A Piada Mortal" mostra um Coringa até certo ponto humanizado e aproximado ao espectador a um Batman que está em cheque e não sabemos até que ponto é capaz de tomar alguma decisão racional, na verdade, durante a HQ inteira ele toma decisões assim, mas e no final? Será que a pergunta que ele fez a si mesmo no começo não foi respondida? Sua trajetória de justiceiro é questionável pois a mesma anarquia que o Coringa se apoia, é também praticada pelo Batman. Afinal como podemos definir racionalidade? De um lado ela aponta para o Batman dar um fim ao Coringa pois ele é o caos, mas matá-lo é uma decisão racional por si só? E se é assim, será mesmo que ele tem o direito de julgá-lo?

Cai-se num paradoxo. Primoroso.

Guenta coração, são divulgados os Pokèmons exclusivos aqui do Brasil!

Guenta coração, são divulgados os Pokèmons exclusivos aqui do Brasil!
Bom, é preciso estar morto para não saber o que é Pokémon Go, o aplicativo mais conhecido como o Tinder que faz as pessoas saírem de casa ou a multiplicação dos pães da Nintendo.

A real é que já tem nego doente que já capturou todos os Pokémons do seu país, no caso 146 dos 151 monstrinhos disponíveis (leia aqui). Mas porque essa diferença? Alguns Pokémons são exclusivos de cada país, como por exemplo o Taurus que só pode ser capturado na América do Norte, o Kangaskhan que por motivos óbvios só pode ser achado na Austrália e o Farfecht'd somente encontrado na Ásia.

Será que vai ter nego babaca e endinheirado que vai viajar pelo mundo só para ser o pica das galáxias?

E aqui no Brasil HUEHUE? O game ainda não chegou na Play Store ainda mas a expectativa de que a qualquer momento a Niantic finalize os servidores nacionais fazem com que o país inteiro (e mais os ladrões) estejam em polvorosa. Para homenagear o país, obviamente que temos sugestões de Pokémons que poderia ser incluídos no game, e não é só o Dollyinho e o Zikachu.


Ah esse Assolino que não me deixa!

Resenha Série: Stranger Things (1ª Temporada)


O que define nostalgia? Saudades de um tempo que se foi? Saudades de um tempo que não se viveu? De um tempo em que só se ouve elogios? Se você leu a resenha ou viu o filme "Meia-Noite em Paris" sabe justamente o que essa sensação de nostalgia traz no coração, às vezes, da saudade do nem se sabe o que exatamente. A verdade é que desde que temos a consciência do que é ser alguém realmente, adulto quer dizer, a vida lá atrás era sempre melhor. A partir desse momento crucial que essa sensação de insubstituivel nostalgia, entendemos porque nosso avô dizia que "no tempo dele era melhor"; agora somos chatos e ranzinzas que nem ele, do nosso jeito. Entendemos agora porque os bailes da saudade existem e que só assumiram a denominação de "festa" porque os anos 80 eram cercados disso, era cafona e colorido a ponto de usar uma gravata de bolinhas vermelhas no meio da rua e não ser taxado de palhaço. Entendemos que, ser criança era o que havia de melhor.

Ah os anos 80... Talvez a década mais cafona, mais emblemática e mais criativa da história da humanidade. Vamos pegar um período aleatório... O fenomenal período de 1982 a 1985 por exemplo: Tivemos o já citado "Poltergeist", "Blade Runner", "Conan", "De Volta Para o Futuro", "Os Goonies", "Christine", "Flashdance", "Star Wars VI", "Scarface", "Um Tira da Pesada", "Indiana Jones", "Karate Kid", o primeiro "Exterminador do Futuro", "Gremlins", "Caça-Fantasmas", "Footloose", "A Hora do Pesadelo" e o surgimento um carinha chamado de Steven Spielberg com um tal de "E.T.", puta que pariu! E na música então? Se nesse período Madonna, Micheal Jackson e Cyndi Lauper estouravam nas rádios, bandas do quilate de Red Hot Chili Peppers, Megadeth, Metallica, Guns N' Roses e Bon Jovi se formavam lá fora enquanto Ira!, Sepultura, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana surgiam na praça aqui no Brasil. 

É, existia música em terras tupiniquins...

Uma série com essas referências a ponto de fazer o Capitão América passar mal, teria como dar errado?

Junte a aventura de "Os Goonies", o contato com o sobrenatural de "E.T.", o jogo de luzes de "Poltergeist", a fantasia de "Dungeons & Dragons", o sombrio de Stephen King e Wes Craven, o monstro babão de Alien, os pôsteres de "Evil Dead", as referências a mil de "Star Wars", walkie-talkies, a bandana do Rambo, um pouco de Freddy Krueger, algumas mix-tapes carregadas de Joy Division e The Clash, a treta da Guerra Fria, e traga tudo isso até 2016. Ufa, pronto, nessa viagem no tempo você terá Stranger Things, a nova série exclusiva da Netflix e viral da última semana nas timelines alheias. 

Nessa temporada curtinha e sensacional de apenas 8 episódios feita pelos irmãos Matt e Ross Duffer, temos uma história ambientada na fictícia cidade de Hawkins, Indiana, onde os inseparáveis amigos Will (Noah Schnapp), Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) passaram horas no porão jogando "Dungeons & Dragons". E numa noite escura de Hawkins que sabemos de cor e salteado que algo vai dar errado, a caminho de casa, Will é atacado por um monstro e some misteriosamente sem dar pista alguma. Puf.

No dia seguinte, a mãe de Will, Joyce (Winona Ryder) se dá conta do desparecimento do filho e vai até a polícia para relatar o ocorrido. Inicialmente o entediado Chefe Hopper (David Harbour) dá de ombros, até por ela ser mãe solteira e por isso ser supostamente desleixada com os filhos; porém a medida em que o caso vai se desenrolando e revelando fatos realmente estranhos, Hopper acaba por se envolver diretamente com o caso, muito pelo próprio passado dele com a mulher e a filha. 

Percebeu que eu disse "filhos"? Joyce tem em Jonathan (Charlie Heaton) a principal força restante, e aquele que na loucura em que Joyce está metida, ainda tenta ainda racionalizar tudo colhendo e apresentando fatos, como pacatamente distribuir panfletos com a foto de seu irmão por aí; claro que sem resultado algum. A perda de Jonathan acaba sensibilizando Nancy (Natalia Dyer) que está naquele love com o popular e tipicamente babaca Steve (Joe Kerry). Mas como nada aqui é normal, numa festinha na piscina em que Nancy é chamada por Steve, sua amiga Barb - que segura uma monumental "vela" - desaparece também misteriosamente atacada por um monstro desconhecido, o que acaba juntando os dois na busca por Will, e agora por Barb (Shannon Purser).

No outro lado não tão distante da história, temos Eleven (Miller Bobbie Brown), uma garotinha de cabelo raspado que é "encontrada" pelos três amigos de Will que por si só resolvem fazer uma busca pelo amigo perdido. Revelando-se alguém de pouquíssimas palavras, até certo ponto inocente e de poderes psíquicos a fazendo parecer uma verdadeira representante dos X-Men, como bem observou Dustin, Eleven é a força motriz da série e é aquela que coloca o Dr. Martin Brenner (Matthew Modine) na história, nos mostrando que "Stranger Things" realmente é muito mais do que uma série de monstros atacando uma pacata cidade. 

Vamos ver. Hopper se vê no meio de uma conspiração governamental das mais cabeludas, Joyce é uma maluca que "fala com as luzes", Jonathan e Nancy estão num verdadeiro filme de terror, e o trio de garotos juntamente com Eleven estão num verdadeiro RPG. Porra!

Uma qualidade diretamente ligada a mistura extremamente bem feita da série é não ter brechas. Sabe aqueles momentos típicos de filmes dos anos 80 em que alguém faz uma cagada ou deixa de ver algo tão extremamente óbvio que te faz arrancar os cabelos? Algo clássico e charmoso da época, mas sinônimo de tosquice agora? Em "Stranger Things" não há isso, todos pensam rápido e resolvem rápido as situações justamente praticando o óbvio e duas cenas específicas que exemplificam bem isso ficaram na minha cabeça. 

A primeira é quando o povo está na busca pelo portal para o "mundo inverso" e Dustin se dá conta de que as bússola que ele carrega nem sempre está apontando para o norte, aí ele logo acaba percebendo que o tal portal altera a carga eletromagnética endoidando a bússola, justamente como seu professor acabou lhe dizendo em outra oportunidade. A outra situação está mais para o final da série, quando Steve está arrependido depois da surra que levou e estupidamente entra na casa em que Jonathan e Nancy estão esperando o monstro, porém mesmo sendo botado pra fora pelo "crush" e assustado pela aberração que apareceu, resolve tomar coragem e aparece pra dar um cacete bem dado no dito cujo.

"Stranger Things" separa totalmente o que é clichê do que é homenagem, usando todos os conceitos apresentados para construir uma história sucinta e coesa entre essas histórias paralelas que citei acima. Todas com o objetivo de encontrar Will, mas cada uma apresentando uma faceta que nos faz sentir climas diferentes em cada uma dessas histórias paralelas. E num formato curto, mas extremamente básico e perfeito de 8 episódios, faz com que cada cena seja fundamental para o andamento de história e impossibilitando totalmente de que algum personagem esteja mais deslocado da história ou em algum episódio específico. Todos que participam ativamente, até Barb, são fundamentais para o andamento da história e no envolvimento de cada um numa cidade em que todos até podem se conhecer, mas nem todos são amigos, e isso se nota claramente no desenrolar da série. A união se faz pela dor em comum, ou pelo monstro em comum. LOL 

E sobre isso, é na relação de Eleven com Lucas que temos uma das coisas mais fofas daquilo que se chama de amizade construída em cada waffle compartilhado, aliás, essa sensação de pureza transpira em todo o companheirismo envolvido nos três moleques; uma referência agora das nossas vidas, da nossa infância, em que tínhamos aqueles amigos inseparáveis que topavam qualquer parada, o que só faz aumentar a nossa simpatia ao torcer por eles em cada passo nessa aventura. 

Realmente Lando Calhassian é um grande traidor mesmo! =D

Esqueçamos o restante do ano de 2016, "Stranger Things" é uma série que não é de ficção científica, nem é de terror, nem é de aventura, é tudo isso! É uma série que você pode matar em um fim de semana preguiçoso, ao mesmo tempo que é uma das melhores coisas que poderiam surgir nesse ano. Então pula pra 2017 logo manolo!

Com ambientação perfeita e fortes personagens que se desenvolvem mutuamente ao longo da história, a série - começando pelos sintetizadores da abertura - traz consigo absolutamente todas características mais marcantes da época no cinema e é carregada pela atuação notável de seu enxuto elenco, principalmente de Winona Ryder que transpira emoção, intensidade e desespero em cada cena, e das crianças que roubam a cena construindo cenas incríveis em que a fantasia e a realidade se misturam deliciosamente, com uma pitada de ciência e nerdice como não poderia deixar de ser.

E sim, vamos a pergunta do século: Teremos uma segunda temporada? Sim, teremos. Obrigado Netflix!

Resenha Filme: Meia-Noite Em Paris


Talvez o mais complicado dilema de um cineasta e/ou roteirista é buscar na história o senso comum com o público; quer dizer, unir a fantasia, nem que seja um pouco, à nossa realidade fazendo com que tenhamos aquele sentimento de que sim, poderíamos fazer parte daquele mundo. Vejam os filmes de super-heróis e perceba a ligação mais característica que Stan Lee trouxe aos quadrinhos. X-Men por exemplo é nada mais do que o sentimento de esperança e a luta por uma inclusão de uma minoria, Peter Parker é nada mais do que um cara comum assalariado que é picado por uma aranha radioativa. Percebe a ligação da fantasia com a realidade? Nem que seja pelos dilemas humanos de um personagem de ação, o que importa é que saiamos do cinema satisfeitos e lúdicos se imaginando um Homem-Aranha ou um James Bond ao caminhar na rua.

Se podemos citar a característica mais firme da filmografia de Woody Allen (e com certeza a melhor delas), é a capacidade de ele conversar com o público constantemente. É a sensação de estar em um terreno em comum como se a vida dos personagens fossem parte da nossa vida, ou simplesmente sentir que os desejos do personagem principal também são nossos desejos. O ato de rir e questionar sobre os constantes mistérios e enganos que cercam a nossa vida, faz sentir com que eu esteja conversando com o diretor num bar aqui perto de casa, rindo das tragicomédias que cercam a vida, mas agora apelando também pra fantasia que nos faz sonhar.

Em "Meia-Noite Em Paris", Gil Pender (Owen Wilson, ótimo) é um escritor e roteirista americano que viaja com a sua noiva Inez (Rachel McAdams) e seus sogros para Paris, cidade que idolatra e talvez a discrepância mais óbvia entre os dois se dá justamente no que a "cidade das luzes" representa pra cada um.

Enquanto para Inez e seus pais republicanos que vem da classe alta e claramente tem outra percepção da vida, Paris é mais uma viagem de férias e de preparativos para o casamento; para Gil, roteirista de sucesso em Hollywood e escritor frustrado na mesma medida, vê a mesma viagem como um momento em que ele pode finalmente se sentir solto daquela aura enlatada de Hollywood. Gil precisa de inspiração, e estar nas mesmas ruas em que F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Salvador Dali e Pablo Picasso caminharam nos anos 20, é nada mais que estar aonde ele quer mais estar.

Paris é o sinônimo da arte, a cidade onde qualquer artista pode se sentir acolhido por ela dar a sensação de prestígio ao mestre, ao dono da inspiração. Fugir do "pseudointelectualismo", do "enlatado" é a constante mensagem do filme e uma tendência das obras de Allen.

A arte, qual ela seja, desde as estátuas de Rodin ao heavy-metal do Metallica, é para ser admirada, sentida; e não usada como um bastão de conhecimento. Esse personagem pedante de todos os dias está em Paul Bates (Micheal Sheen), amigo e algo mais de Inez que vê em cada passeio por Paris uma oportunidade de mostrar seu conhecimento, algo que Inez se encanta, talvez pela oportunidade que tem de diminuir um pouco mais seu amado Gil.

É exatamente a meia-noite de um desses desagradáveis dias, bêbado e perdido pelas ruas de Paris que a magia da cidade vem à tona, e em um desses momentos em que vemos um Gil extasiado ao ver Hemingway e envolto naquela aura de pessoas apaixonadas pela arte, em que ele acaba se apaixonando por Adriana (Marion Cotillard) vendo-se obrigado a confrontar a ilusão de que uma vida diferente poderia ser melhor que a atual. É aí que Woody Allen toca num dos pontos de nossa geração e de qualquer outra que conhecemos, que é a nostalgia. A sensação de ter nascido na época errada sempre será permanente, mas em contrapartida a sensação de satisfação será momentânea pois o amor e os dilemas que o envolvem sempre serão os mesmos. O que é necessário é buscar a tranquilidade para poder conviver harmoniosamente com o presente.

Gil aprende que ama Inez, mas de um jeito que ele nem se dava conta, pois ela frustra na mesma medida seus sonhos e desejos a cada vez que ironiza seu amor pela obra de Hemingway e sua busca por inspiração, o afastando da simplicidade que todo e qualquer artista como ele idolatra. Como o desapego para com si mesmo em andar na chuva, lembrando diretamente de Amélie Poulain. Talvez esse seja o momento mais emblemático do filme para mostrar que nunca podemos sublimar os nossos desejos sempre buscando alguém que saiba o valor inestimável que isso tem. Andar na chuva é como o prazer de estar envolto pelo silêncio. São as sensações mais simples, a de desapego e a de despreocupação é que nos completam em um mundo na qual temos cada vez menos contato com nós mesmos.

E ao debater com certa melancolia e bom humor esses e outros casos, em "Meia-Noite Em Paris" percebe-se também a mensagem mais óbvia, de que a arte é aquela que nos ajuda a entender a vida.

Mas que porra é essa de Brexit?

O Descafeinado é entretenimento, mas também sinto que tenho o dever de te deixar por dentro do que acontece, claro que não do Caetano Veloso se preparando para atravessar a rua no Leblon (essa notícia existe).

Creio que se você não anda tendo muito tempo de ligar a TV, e nem muito ânimo de ir além das notícias do seu time na internet da vida e dos memes que permeiam a sua timeline do Facebook, tem entendido muito bem o que significa esse troço do Brexit. Bom, quem diria que os memes servem de alguma coisa nesse mundo? Pelo menos a eliminação inglesa na Eurocopa capitaneada pelo pé glacial do Mick Jagger te fez ler essa palavra ao menos uma vez.

Sobre isso, tenho certeza de que sua timeline é feita também de notícias do Game of Thrones e também deve ter ouvido falar disso arrancando os cabelos sobre os impactos que essa separação da Inglaterra da União Europeia pode causar para o livre trânsito de alguns atores da série, do impacto sobre o preço das viagens para as locações em que a série é filmada, da sua viagem preparada pela Londres que eu sei que vai acontecer, etc. Calma, o feijão ficou mais caro, mas não é por isso. O fato é que nem o Mr. Bean sabe ao certo os impactos que acontecerão daqui para frente que aquele bando de velhos orgulhosos ingleses fizeram o favor de tornar realidade. Sim, a maioria dos 51,4% dos votos nacionalistas a favor pela saída do país da UE foi idoso. Tinha que ser.

E como a gente é paga pau pra caralho e tentamos fazer uma revolução de sofá todos os dias, "surpreendentemente" tem gente separatista que aproveitando desse efeito dominó que pode surgir do Brexit para coletar assinaturas solicitando um referendo para a separação do Sul do resto do Brasil. Pode? Pode sim, Arnaldo.

Mas primeiro de tudo, vamos entender o que é Inglaterra e o que é Grã-Bretanha, portanto jovem alienado que acredita que a Jamaica fica na África só porque tem gente negra, assista ao vídeo que o Rodrigo do ótimo canal Xadrez Verbal te explica certinho ok?

Um famoso conto de Isaac Asimov transformado em HQ

Um famoso conto de Isaac Asimov transformado em HQ
O famoso conto do prolífico autor russo de histórias de ficção científica Isaac Asimov em questão se chama "A Última Pergunta", e se trata de quão somos movidos pela eterna insatisfação e das incertezas sobre o futuro e como superá-las, mas acima de tudo, a moral da história se dá pela questão de que: sempre que houver alguma pergunta a ser respondida, a humanidade sobreviverá.

Claro que essa é uma interpretação própria. =)

Recentemente várias histórias clássicas tem ganhado versões em quadrinhos aumentando assima difusão e compreensão destes clássicos, e nessa onda, o cartunista Ryul transformou esse conto em uma grande e surpreendente história em quadrinhos.

Lhes aviso que é longa, vai doer seu dedo de tanto rolar a página, mas vale muito a pena ler até o final!





































A visão horrível de Breaking Bad pelos olhos de Jesse Pinkman

Após assistir os 62 episódios de Breaking Bad o que é mais me marcou dali é como uma vida levada em meio as frustrações e inveja pode ser nociva a um ser humano.

Não viajar para aonde seus amigos viajaram, não ter o carro que seu vizinho tem, não trabalhar no emprego que você sonhou, não suportar mais as comparações que todos fazem com outras pessoas mais bem sucedidas que você. Na vida acredita-se que todos tem as mesmas oportunidades e por mais que digam, nem sempre depende somente de nós alcançar o sucesso que dizem que somos capazes. 

Walter White é um professor de química genial com uma família amável, mas sofre por não ter alcançado aquilo que as outras pessoas o fizeram acreditar que ele poderia ser, não aguenta ter sido passado pra trás e ver seus melhores amigos enriquecidos justamente com o talento que era dele também, e agora ele se vê com um câncer... vendo seu cabelo cair, estando tão cansado e nauseado que ele não tem coragem de levantar. Ele não deixou nada para a sua família, nem para ele mesmo. Um mero professor de química que não tem nada e não marcou seu terreno. Não tem porque ser lembrado.

É a partir daí que Walter abriu mão de valores morais para eleger somente um Deus: ele mesmo. Criou, se modificou e se destruiu. Walter viu seu câncer, abraçou seu desespero e usou sua família para finalmente construir um império que ele tenha o mais absoluto controle. Um momento chave para o entendimento de que esse era um caminho sem volta é no episódio Over (S02E10) aonde Walter é confrontado por Hank o impedindo de embriagar o próprio filho, em que ele reage dizendo: 

"Stay out of my territory!"

A partir desse episódio até o épico encerramento com Felina, somos capazes de ver um Walter White que não admite não ter mais um espaço, não admite mais ouvir ninguém além dele mesmo, aonde ele está corrompido pelo poder e aonde o câncer nada mais é do que uma alegoria. Engana-se quem acha que os barris de dinheiro que ele enterrou no deserto eram a sua preocupação, isso é mais inválido do que a desculpa de que o dinheiro era para a sua filha recém-nascida. 

Dizem que os homens apenas usam a religião como uma desculpa para a sua própria intolerância. E Walter, sendo nada mais um Midas ao contrário que numa bola de neve viu e fez todos ao seu redor, Skyler, Hank, Walter Jr., Mike, e até Saul Goodman, serem completamente destroçados pelo seu desejo, finalmente em Felina disse a Skyler, a mulher que sempre amou, a única frase realmente sincera em 62 episódios de que ele fez tudo isso por si mesmo. Mas nenhum deles foi mais destroçado que Jesse Pinkman. 

O ex-aluno do ex-professor de química que viu a oportunidade de traficar metanfetamina para ganhar uns trocados e se viu em um caminho sem volta também, teve em Walter White momentos de amizade e da mais perfeita desgraça na Terra. Walter era um homem que amava Jesse a sua maneira e fazia chover fogo dos céus se fosse necessário, deixando a única mulher que Jesse amou morrer na sua frente e admitindo que não fez nada pra impedir isso, aquele que foi responsável direto por cada gota de sangue vista e sentido por Jesse e por nós em cada momento da série.

O caminho que o grande Heisenberg pisou, era sem volta, e Jesse só foi se afundando junto com ele.

Em One Minute (S03E07), temos a declaração mais emocionante e dolorida da série:

"Eu não quero nada com você. Desde que eu o conheci tudo que eu gostava desapareceu. Arruinado, virando merda, morto. Desde que me juntei ao grande Heisenberg. Eu nunca me senti mais sozinho. Eu não tenho nada! Ninguém! Tudo se foi!"


Saudades Breaking Bad!

Vídeo via Grable424

Tirinhas da Semana #284