Resenha Série: Vikings


Nos últimos anos as séries de televisão passaram a ter uma outra visão do que era entretenimento. Os tempos mudaram, o público mudou e por consequência esse público que consumia somente sitcoms (extremamente bem sucedidas) como Friends passou a se questionar se algo a mais podia ser realizado. Na época a separação entre cinema e televisão era bem clara, para a primeira restava o entretenimento mais simples, para a segunda o drama e a sofisticação; mas a virada começou quando justamente a HBO começou a carregar o lema que é conhecido até hoje: "muito mais que um canal", e séries como Sopranos foram responsáveis diretas para essa virada que deram origem a séries como Breaking Bad e House of Cards, que tocam em assuntos delicados e se aproveitam do formato televisivo muito mais flexível para desenvolver histórias bem mais densas que em duas horas poderiam ser limitadas, e até na existência da Netflix em si, que investe pesado na criação de seu conteúdo próprio e mudou a forma de consumirmos a própria televisão. Com o perdão do trocadilho, realmente é um castelo de cartas cada vez mais indestrutível.

Portanto não me surpreende que o canal de documentários History Channel fosse se aventurar nesse mundo atualmente tão concorrido e apresentasse - até pelo nome que carrega - uma série de altíssima qualidade carregando um pouco da história em cada cena e é isso o que fascina. É fácil você se divertir durante 40 minutos com a série e correr logo depois pro Wikipédia pra ver se tudo aquilo sobre os deuses e invasões dos Vikings na Europa realmente aconteceram, e sim, aconteceram, Ragnar Lothbrok (Travis Fimmel) existiu!

Em uma pequena pesquisa, Ragnar Lodbrok (aqui na série como Ragnar Lothbrock) foi um rei semi-lendário na Dinamarca que reinou o pais durante os séculos XIII e IX e foi o grande responsável pela expansão das explorações Vikings dando origem a Era Viking de ouro que conhecemos e que por consequência acabou plantando a semente para o futuro declínio de sua cultura. Seu irmão Rollo (Clive Standen), um grande guerreiro Berserker (denominação para os guerreiros que não usavam nenhum tipo de proteção durante as guerras muitas vezes se utilizando de bebidas e cogumelos alucinógenos para provocar o poder de ferocidade dos animais) que se tornou Duque no feudo na Normandia ao fazer um acordo com os francos para impedir os ataques vikings em Paris. A ex-esposa de Ragnar, Lagertha (Katheryn Winnick), uma skjaldmö donzela escudeira, digna e corajosa valquíria (que de acordo com a lenda eram deidades femininas menores que serviam Odin sob as ordens de Freya) capaz das proezas mais insuperáveis e que entre idas e vindas casou e ajudou Ragnar Lodbrok a vencer diversas batalhas.

Todos os três personagens realmente existiram e a cultura politeísta dos Vikings é retratada de forma brilhante assim como o choque cultural provocado pelas invasões a países do ocidente como a Germânia (hoje Alemanha e ainda não mostrada na série), Frankia (hoje França) e nos reinos da Mércia, Nortúmbria e Wessex na Inglaterra, governados pelos reis Carlos, Ecgbert, Aelle respectivamente. Preciso lhe falar que eles também são figuras que realmente existiram? 

A série retrata corretamente o dia-a-dia e os costumes do povo nórdico e entrega verdadeiras batalhas de tirar o fôlego, não à toa, pois se ficou mole criar batalhas épicas em CGI depois de Senhor dos Anéis, aqui temos um trabalho magnânimo para treinamento dos figurantes. Tudo é muito bem filmado e coreografado e o sangue transborda na tela sem dó. São cerca de 206 dublês e 500 figurantes e cerca de 5 mil deles na terceira temporada! Aliás, quando a gente vê as batalhas em Paris na quarta temporada é impossível não soltar um puta que pariu de boca cheia pensando que aquela sequências alucinantes são realizadas como o mínimo de CGI. Não vi Game of Thrones para efeito de comparação, mas é difícil de outra série do estilo superar a excelência e o cuidado que vi aqui.

O povo Viking era essencialmente guerreiro, e invadiu não só esses países que citei no parágrafo anterior, mas desbravou também a Rússia, Constantinopla (hoje Turquia), Islândia, Groenlândia, e até a América bem antes de Colombo sonhar que a terra era redonda. Como você vê não falta história. Mas também esse foi um povo muito astuto e sonhador que fincou sua cultura a lugares nunca antes imagináveis deixando marcas até hoje. 

O diferencial de Ragnar como rei (e talvez seja por isso que eu o admire tanto), é que ele não busca somente força entre os deuses, vê que o seu povo deve enxergar além disso e ver que há algo além que um rei precisa ter constantemente ao seu lado: honestidade e lealdade. Atributos que sabemos bem que naqueles tempos eram algo que estavam em falta ou simplesmente não existiam, forçando não só Ragnar a se questionar sobre o mistério da morte mas o que faziam pessoas serem realmente dignas de confiança. Algo que vemos na invejosa traição de Rollo e dos ciúmes de Floki (Gustaf Skarsgård) por Athelstan (George Blagden), que vê como heresia diante dos deuses nórdicos ver o rei Ragnar tratar o cristão como amigo, mas que em contrapartida oferecia justamente o que Floki não se dignificava ter. Aliás, esse conflito de religiões é bem claro quando também nos damos conta que enquanto nos Vikings impera sempre o mais forte acima de tudo, os cristãos são mais políticos e preparados intelectualmente, mas não pensam duas vezes em sacrificar seus filhos quando lhes for conveniente. Então quem é o mais selvagem na história?

Ser astuto e sonhador, é o vemos que transpira pela pele de Ragnar e por isso ele tenha sido tão lendário. Ele foi o único que levou seu povo além das fronteiras já conhecidas destronando um a um todos que se opuseram em seu caminho. A série como Breaking Bad e Game of Thrones é feita de escolhas e por isso ela se torna tão grande. Uma frase diz bem o que ser rei significa, quando Rollo na terceira temporada o pergunta sobre a suposta felicidade que o poder pode trazer e que até então ele não provou: “isso nunca foi sobre minha felicidade“.

O que vemos por toda a série não foi um Ragnar somente interessado por saquear e invadir, mas sim por tentar deixar um legado, e a cada vez que ele sente a derrota e a morte daqueles que acreditaram na sua palavra ele sente cada vez mais o peso da responsabilidade. Como disse, a série é feita de decisões e Ragnar, sentindo também o peso da idade e desgostoso de muita coisa, sente esse fardo cada vez mais pesado. 

Ao final da mid-season da quarta temporada ele pergunta a todos: "who wants to be a king?". Quem então tem a coragem de se candidatar? Talvez esse legado que Ragnar construiu seja um fardo tão pesado que nem seus filhos consigam carregar, e se a série continuar seguindo a história sabemos aonde isso vai terminar. E mal posso esperar pra ver!

Finalizando, Vikings é uma série criada por Micheal Hirst para ver para ontem. A construção histórica, o empregamento da pesquisa, a história que transpira e fascina (olha quantos links vou disponibilizar abaixo), e sobretudo, a construção dos personagens Ragnar, Lagertha, Rollo, Floki e Bjorn (Alexander Ludwig) (que agora floresce de vez) é simplesmente fantástica e evidencia quanto essa cultura pouco mostrada antes na televisão e no cinema merecia uma retratação digna - chega de Romanos LOL. Um golaço da History Channel que credencia o canal a se aventurar em outras séries de época como essa.

Para ler e pesquisar:

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Voltando
Next Post »
Comentários
0 Comentários
0 Comentários