Resenha Filme: Ex Machina - Instinto Artificial

segunda-feira, março 07, 2016


Na ficção científica é natural fechar os olhos e logo pensar em algo mirabolante como qualquer coisa voadora que faria Isaac Newton comer a maçã que caiu na sua cabeça, mas alem do sonho acordado, o termo fic-ção serve como um empurrãozinho pra nós mesmos, lúcidos, irmos atrás de nossos sonhos. E falando em sonhos, com certeza a mais notória delas é a inteligência artificial. O que é mais fascinante do que poder replicar nossa espantosa capacidade intelectual em uma máquina que faça tudo e mais um pouco pra facilitar nossa vida? E já vemos o começo dela em nossas mãos, afinal, o que seríamos nós sem o Google pra dizer o que é melhor e mais cômodo naquele momento?!

Acredito que podemos encaixar o filósofo inglês John Locke nessa questão, ele acreditava que: a existência de um Estado se deve não à condição de selvageria do ser humano, mas a necessidade deste de uma instância capaz de estar acima do julgamento parcial e egoísta de cada um. Obviamente ele falava no âmbito político-social, mas encaixando esse pensamento na ordem tecnológica da coisa, lhe pergunto novamente: você é mesmo capaz de escolher ou buscar algo sem que o Google esteja te auxiliando? Entre essa praticidade que despeja em anúncios diversos produtos relacionados ao que você acabou de pesquisar, pense de novo: quanto tempo você aguenta ficar sem seu smartphone? Sem internet? O Google seria nosso Estado e somos dependentes dele, estamos dependentes e esse é um caminho sem volta.

Não estou querendo soar como um profeta do apocalipse que diz que todos estamos condenados, mas se o mais brilhante dos físicos e cientistas vivos atualmente, Stephen Hawking, teme a inteligência artificial como o maior dos riscos à humanidade, então quem seria eu para contradizer? Os humanos são falhos e a partir do momento em que eles subtraírem isso em uma consciência semelhante, eles não deixariam de ser falhos, mas ironicamente se encaixariam simples cadeia Darwiniana de que o mais forte sobrevive, e no caso, sabemos quem se tornou o mais forte.

Imagine agora quanto o Google e o Facebook sabem de mim e de você? Diria que praticamente tudo. Os nossos gostos, nossas buscas, nossa aparência... Ex Machina busca nos dizer o que poderia acontecer se essa I.A. fosse personificada e mais importante, como, e se essa tecnologia que usamos HOJE fosse direcionada a essa evolução. O verdadeiro temor aqui não é a inteligência artificial em si, mas a coleta de dados.

Mas como assim?

Aqui um jovem programador Caleb (Domhall Gleeson) vence um concurso para passar uma semana com o fundador da empresa na qual trabalha, um bilionário recluso (e provavelmente maluco) Nathan Bateman (Oscar Isaac) que enriqueceu ao construir um motor de busca mais usado do mundo chamado Blue Book. Assim que Caleb Smith chega no local isolado e paradisíaco, o jovem programador fica sabendo que foi recrutado para aplicar na robô humanoide chamada Ava (Alicia Vikander) o Teste de Turing para Nathan finalmente saber se seu experimento foi bem sucedido - para quem não conhece, o Teste de Turing (ou Jogo da Imitação) consiste em testar a capacidade de uma máquina em exibir um comportamento intelectual igual ou equivalente ao de um ser humano, sendo que este, não poderia visualizar com quem está falando. Mal comparando é como um imitador do Silvio Santos falar com você pelo telefone, se ele for bom imitador, você dificilmente irá distinguir o verdadeiro do falso a não ser que você o veja. Em outras palavras, Caleb não poderia saber que ela é uma máquina.

Enfim, o lance é que Caleb cada vez menos distingue Ava de um ser humano normal e com a premissa do teste, se abre cada vez mais com a sensual robô e acaba se apaixonando pela mesma. 

Se você notou a semelhança com Google e Facebook, diria que ela não é por acaso. Tá certo que Mark Zuckerberg, Sergei Brin e Larry Page não são nem de longe bilionários reclusos e malucos como Nathan, mas lembra o que lhe disse sobre coleta de dados? Obviamente construir uma I.A do zero é uma tarefa extremamente complicada, mas saber as preferências e gostos da psique do ser humano já é uma dica e tanto né? 

Então além de uns bilhões de dólares e a megalomania de ser deus, o segredo de Nathan para o desenvolvimento de Ava é a coleta de dados. Legalmente e abraçado com a desculpa evolucionista, Nathan convence o Governo a permitir que que ele acesse todas as câmeras e dados de busca de todos os computadores e smartphones existentes possibilitando que ele replicasse a psique humana em Ava, e o mais assustador é que graças ao vazamento de Edward Snowden e seu Wikileaks, sabemos que o governo americano já desenvolveu a tecnologia suficiente pra isso. É só usar galerê

Sem contar que o mesmo Teste de Turing que ele diz a Caleb para aplicar a Ava já não é uma tarefa tão dificil assim para as I.A. já existentes, temos robôs que cumprem facilmente tarefas domésticas, que cuidam de bebês e até máquinas fabricadas pelo Google que aprenderam a jogar de forma bem competente games de Atari. Sejamos francos que vai demorar um pouco para as máquinas ganharam de você no Pac-Man, mas é uma questão de tempo para o Google desenvolver a tecnologia para a resolução de problemas cotidianos.  

Aliás o próprio teste foge um pouco da tradicionalidade e isso é algo que o próprio Caleb questiona em certo momento, afinal, como ele poderia testar Ava plenamente se ele sabe quem e o que ela é? E talvez um dos momentos brilhantes do longa é quando Nathan explica isso ao dizer que busca uma avaliação de relacionamento, exemplificando o funcionamento do cérebro em um quadro do artista Jackson Pollock que utilizava o processo de gotejamento de tinta sobre a tela. O que poderia ser algo randômico a primeira vista, Pollock em contrapartida dizia que não existia aleatoriedade alguma mas que sim todos os riscos e gotejamentos era minuciosamente planejados na chamada arte automática, ou chamado fluxo de consciência. 

A partir daí é fácil sacar que a viagem de Caleb não é bacana como a de Charlie para a fábrica de Willy Wonka e que seu "bilhete dourado" não foi um mero acaso. O que Nathan quer é que Caleb desenvolva a razão de ser do ser humano em Ava, cada movimento, cada ação corporal, cada palavra dita. A manipulação inerente do ser humano. O que traz consequências catastróficas. 

Tipo o Google usa suas preferências para cada vez ficar mais inteligente e esperto para sua comodidade, mas imagine que essa I.A. deles do nada deixasse de ser usada somente para publicidades inteligentes mas sim para alimentar um ser artificialmente inteligente para derrotar a inteligência que o criou? Ou melhor, para num joguinho mental aguçar o egoísmo e pouco a pouco extinguir o burro professor? É o cerne de Ava. Ela 'pega' todas as informações e assim conquista o que quer.

Filmes de ficção cientifica em geral costumam apontar em direção a um futuro distante de tecnologias avançadas, mirabolantes e com uma humanidade mais próspera e igualmente cheia de problemas, mas o grande mérito de Ex Machina é ir justamente ao contrário da fantasia sendo crível e assustador por consequência. Numa aura de paranoia gigantesca que a trama joga na nossa cara e nos faz não confiar em ninguém, o longa traz atuações dignas com um roteiro esperto divagando sobre um tema inquietante e que insistimos em ignorar de uma forma bem direta e com elenco econômico - afinal são apenas quatro personagens envolvidos.

Ex Machina também traz várias referências bíblicas (como por exemplo Caleb ter a estadia de sete dias no paraíso de Nathan que banca de Deus ao criar algo semelhante a nós), muitas outras ligadas a temas filosóficos, e até feministas se referindo a obsessão de Nathan pela submissão feminina personificada em suas criações, como a serva muda Kyoko. Mas principalmente traz uma tonelada de questionamentos sem necessariamente responder nenhum, provocando um interessante debate numa sessão pipoca com suas amigos - claro se estes estiverem afim não só de desligar o cérebro e relaxar. Aliás, relaxar é uma coisa que você não vai conseguir mesmo após ver Ex Machina.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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