Resenha Cinema: Batman Vs Superman - A Origem da Justiça


Eu acredito que cineastas como artistas que são tem por obrigação suscitar discussões, dúvidas e questionamentos, desafiar paradigmas que facilmente produzem o efeito manada e como potencial formador de opinião, colocar a sua visão dentro daquele universo. Sim, antes de qualquer crítica realmente entendo o que Zack Snyder quis fazer com "Batman Vs Superman".

Snyder, como leitor de quadrinhos, quis colocar um ponto de vista bem particular e naturalmente isso não iria agradar todo mundo que tem um cu pra chamar de seu, eu entendo isso, e entendo também de que a DC sabendo disso o procurou para distanciar seus filmes quaisquer de comparações com universo da rival Marvel e mesmo da conveniência que era chamar Christopher Nolan para a direção porque a trilogia Batman dele deu certo pra caralho. 

Filosofias e compreensões...

Os heróis da DC tem uma diferença gritante para aqueles da Marvel e entender isso ajuda a gostar mais de cada personagem. Exceto o Batman e ao contrário dos heróis da Marvel que carregam mais a humanidade consigo, todos os outros heróis da DC tem a alcunha de deuses caminhando sobre a Terra. Ultra-poderosos e onipotentes, eles tem o poder nas mãos de salvar e ao mesmo tempo de extinguir toda a humanidade, tudo depende de uma escolha e talvez exatamente por eles carregarem o "mundo nas costas" seja o que torna os heróis da editora tão dignos de grandeza. Olha, 71% do planeta é coberto por água e o Aquaman tem o pleno controle de tudo isso, então antes de chamar o herói de inútil se questione o que o impede de controlar essa bagaça. Sim, somente o Superman. =D

O Superman é um herói simples se formos observar sua moralidade (por isso também tão contraditório), mas extremamente difícil de adaptar as telonas. É simples colocá-lo nos quadrinhos e nos desenhos animados que carregam as liberdades poéticas pra ele existir do jeito que amamos ou odiamos, porém no cinema isso é completamente diferente. 

É preciso colocar humanidade e abaixar o nível do Superman como extraterrestre que é para nos mostrar que ele com seus erros é capaz de, como os mortais, conquistar os seus acertos. Creio que seja preciso modificar a simplista visão heroica de supostamente ter que salvar a todos para ensiná-lo a conviver com as dúvidas, sobre o que ele precisa fazer realmente e sobre quem merece viver ou não merece. Em outras palavras, o tornando mais crível. Lex Luthor (Jesse Eisenberg) exemplificou bem quando disse que se Deus é onipotente ele não é bom, e se Ele é bom, não é onipotente. Não há como ser plenamente bom nesse mundo e o entendimento que Superman tem disso ao final do filme é fundamental para ele entender o herói que precisa ser.

Bom, muito se discute se o Batman ou o Superman podem matar ou não, e certas cenas de "BvS" deixam subentendido que isso acontece ou poderia acontecer, no filme vemos o Superman chegar em seu limite e o velho Batman cada vez mais violento cansado das ervas daninhas que os vilões são, em certos momentos que isso fica claro, chega a ser assustador pensar no que eles poderiam vir a se tornar. Mas se coloque no lugar deles, você mataria Zod ou não em "Man of Steel"? Você mataria ou não o Coringa no "Cavaleiro das Trevas" na HQ? É nessa visão de Snyder se apoia e o filme é apenas uma visão, os quadrinhos não. É esse mundo de escolhas que os poderes implicam que eles precisam carregar nas costas. Ser um herói também é uma maldição e Diana Prince se afastou cerca de 100 anos do contato humano porque estava cansada da sua crueldade.

Tá igual ou tá igual?
A cena do salvamento na comemoração do Dia dos Mortos simbolizou bem as tantas mortes que o Supinho acabou causando para salvar tantas outras. Para ser um herói de verdade, corajoso, é preciso conviver com a inevitabilidade muitas vezes posta nas situações. Emprestando o Tio Ben um pouco; grandes poderes trazem grandes responsabilidades!

Aqui em BvS o Batman é tomado pela raiva, que carrega consigo as dores que teve com a morte do Robin e vê o Superman como ameaça que pode causar o fim de tudo que ele acredita ter, afinal, não há nada nem ninguém que possa impor algum limite nele. Como confiar cegamente no discernimento de um Deus onipotente que tem a fraqueza naqueles que ama? Ele se sente no direito de que precisa fazer algo.

Aquela péssima sensação de filme "meh"

Mas agora saindo da veia filosófica que TODO filme do Zack Snyder carrega obrigatoriamente e que sempre é muito boa por justamente dar um maior sentido a tuuudo isso, infelizmente achei muito simplista as soluções que ele colocou para justificar o embate entre os dois maiores heróis da Terra. 

Com Lex Luthor personificado muito mais como cientista louco do que um magnata endinheirado que nos acostumamos a ver - algo intrínseco dos quadrinhos e que foi utilizado por ser um personagem que em humor destoa um pouco da seriedade do filme, aos poucos ele vai "armando" para Bruce Wayne se explodir de raiva para querer esmurrar a cara do Clark Kent (aliás esquece isso de identidade secreta, no final do filme todo mundo sabe quem é quem), só que esse motivo me pareceu tão vazio para dois heróis da sua grandeza terem reais motivos para se degladiar, soou como mais uma briga de escola movida pela vingança do que uma real motivação política e moral que deveria ser, 

Aliás o filme como um todo me pareceu uma colcha de retalhos. Apesar de as cenas terem ligação, é por serem rápidas que não tem o desenvolvimento necessário, aquele meio-de-campo saca? Por "increça que parível" em 2h30 de filme não senti em nenhum momento que o filme simplesmente fluía na tela e na minha mente, fui movido muito mais pela curiosidade e pelo senso crítico de saber "como terminava essa porra (não no sentido pejorativo)" e isso não é lá muito bom.  

Como tivemos duas críticas separadamente, vi dois filmes separadamente. O primeiro tem foco no Batman e no Superman e como eles vão chegando até trocar uns sopapos e o segundo a partir da entrada do Apocalipse para justificar o que vem por aí no futuro da Warner/DC. 

Não vou discordar que as duas partes podem sim fazer parte do mesmo filme, no entanto, a primeira parte focada na luta entre os dois é resolvida rapidamente em detrimento da segunda. Por mais que como dia e noite que os dois são e possam se rivalizar por isso, penso que eles como a duração do dia, se complementam como heróis e até por isso eles tem que unir forças. Mas aí eu me perguntei porque toda aquela rixa que se criou durante duas horas se resolveu tão rapidamente e tocando naquele velho assunto dos assassinatos dos pais. Ok que o Batman é eternamente atormentado por isso e por essa causa e circunstância que ele se tornou o Batman, só que precisam dizer aos roteiristas que não é obrigatório colocar a morte dos dois em todo e qualquer filme do Batman, bastava deixar subentendido. É como a Marvel e o Tio Ben que não aguenta mais ser morto nos filmes do teioso. 

Agora falando da parte do Apocalipse em especial, essa parte só existe porque BvS tinha que ter obrigatoriamente uma ligação com a Liga de Justiça e para provocar umas explosões e efeitos que só o Zack Snyder sabe fazer. O plano maléfico do Lex pra liquidar o Supinho de uma vez por todas resulta numa batalha que tornou o conflito que dá nome ao filme inexistente, o transformando em uma Liga 0.5 a partir da Mulher Maravilha. E ainda batendo nessa tecla, a cena do laptop da LexCorp que mostra pequenos vídeos de segurança dos outros potenciais membros foi totalmente desnecessária, saí do cinema com a sensação esquisita de que foi uma tentativa desesperada de a DC enfiar goela abaixo a ligação de seu universo nos relembrando do dever de ver o filme da Liga da Justiça do que algo que coexistisse necessariamente com o filme. Cara, a Marvel faz isso tão bem e sem forçar...

E como o povão se sai?

E ah, se Ben Affleck deu um bom Batman? Sim, ele teve sua redenção. Affleck não rouba a cena até porque o protagonismo não é só dele e o roteiro não foi escrito assim, no entanto, além de termos um Batman monstrão, Affleck deu vida a um Batman cheio de cicatrizes dos percalços da vida, realmente assustador e imponente na primeira vista, brutal nas lutas como na serie de games Arkham! 

Gal Gadot como Mulher Maravilha? Ah que delícia ver ela... Linda e misteriosa é o tipo de mulher poderosa que finalmente dá o tipo de protagonismo que as mulheres ainda não tem no mundo cinematográfico dos heróis, tanto que ela é a única que dá conta do Apocalipse de verdade e tem mais consciência plena de seus poderes do que o próprio Superman. Seu filme solo promete, ainda mais por ter sido anunciado que será ambientado na I Guerra Mundial, uma guerra que fora mal retratada nos cinemas e que foi tão sangrenta quanto a II.

Já o Henry Cavill como Superman foi ok de novo como foi em "Man of Steel". Temos Christopher Reeve como Superman definitivo e vai ser muito difícil alguém surgir pra apagar a nossa imagem que temos dele, mas Cavill dá um bom Superman e temos o herói no filme como o personagem que dá aquele filtro de compreensão sobre o espectador, só que o ator não é carismático o suficiente. Bom, talvez o Superman não o seja, mas... é consenso com meus botões de que essa questão vai me cutucar em qualquer filme que ele aparecer.

E Zack Snyder é um bom diretor e Watchmen é um dos meus filmes prediletos, o diretor é realmente gente como a gente e até é mais fanboy que nós, mas é isso que me preocupa. As câmeras lentas dele dando aquele tom épico e exageradamente dramático que pareceu em BvS fazer-se obrigatório a todo momento, chega uma hora que... cansa, se torna forçado. Ele sabe como tornar cenas realmente lindas de se ver, mas em outros momentos ele esquece que tem que se ater ao cuidado do roteiro. Snyder é um diretor corajoso em como fã, impor sua visão particular nos filmes sem muito se importar se A ou B vão amar - como foi aqui - e seu modo de dirigir e pensar estão confirmados no filme da Liga da Justiça, então acho bom ele modificar um pouco essa visão deixando a sensação obrigatória da seriedade um pouco de escanteio pois temos na série do Flash um ótimo exemplo de fidelidade mesclada com o tom descompromissado dos quadrinhos, sem parecer tosco. 

É bom, mas não é o que pintou ser

Confesso que a minha sensação ao sair do cinema foi a de confusão, sinceramente não sabia dizer se o BvS foi bom e ruim, e até mesmo nessa resenha tendi a apontar qualidades e defeitos que podem parecer meio contraditórios para com quem está lendo; na verdade, acho injusto dizer que o filme é ruim só por causa disso. É preciso analisa-lo. E acho bom que ele nos desafie a pensar e é muito bom que ele provoque discussões com os fãs de cada herói sobre suas decisões tomadas e porque eles deveriam fazer isso ou aquilo, é tudo uma questão de visão. Porém, nessa bagunça há um consenso, fazia muito tempo que não se via um filme tão polarizado, nas tela e fora dela, e que causasse tantas emoções como BvS causou, e na verdade o acho muito bom olhando por esse lado. Mas se eu fosse dar uma nota, seria 7. Bom na fantasia, bom na bateria, mas destoante na evolução. Muitas partes do filme me pareceram desnecessárias de existir e acho que tranquilamente poderia se cortar meia hora de filme brincando.

Não saiu Liga da Justiça ainda e temos dois Vingadores e uma Guerra Civil por vir, mas como reunião que é BvS, eu acabei tendo no primeiro Vingadores uma sensação mais de regozijo do que em BvS e digo isso com um aperto no coração, até porque eu e você mereciamos um filme melhor pois epicidade que o trailer pintou, não condiz com o filme e isso é algo que me causou uma frustração enorme.

Bom, percebeu que em toda resenha tive cuidado em reiterar o "eu" e o "me"? Então Batman Vs Superman é justamente isso, é sua interpretação e você muito bem pode achar o filme nota 10 ao contrário de mim. Esse que é o legal da brincadeira.

Resenha HQ: Guerra Civil Marvel


Numa edição de luxo caprichadíssima da Panini impressa em papel fotográfico, realçando ainda mais as belos traços e cores de Steve McNiven, e que ficou por muito tempo esgotada sendo relançada recentemente aqui no Brasil - naturalmente aproveitando o lançamento do filme que tem a estreia programada para abril. Guerra Civil é talvez a história mais épica da Marvel por colocar as duas maiores figuras dos Vingadores originais na pancadaria, os colocando frente-a frente por questões ideológicas e políticas por Mark Millar aproveitando bem a sensação de insegurança causada após os acontecimentos de 11 de setembro que mexeram com os Estados Unidos.

Mark parte da seguinte linha de pensamento: será que é possível confiar a esses mascarados dotados de super poderes a segurança nacional? Pense que, se eles existissem realmente, você acharia correto o governo poder se sentir na obrigação de regulamentar esses poderes? E tal qual um exército, os realocar à sua necessidade, sublimando assim o poder deles de ter discernimento do que é importante ou não, do que é certo ou não no momento crítico?

No universo da Marvel no cinema os acontecimentos em Sokovia no filme dos Vingadores: "Era de Ultron" são extremamente importantes para se entender a discordância dos heróis no cinema, mas na HQ a coisa é um pouco mais complexa, não só por termos uma caralhada de heróis (o que é impossível no universo do cinema pois os direitos de diversos personagens não estão presos a Marvel), mas porque os acontecimentos já se vinham se desdobrando a um tempo em diversas frentes; como o Hulk provocando uma destruição enorme em um confronto em Las Vegas ou o Wolverine ameaçando matar o presidente dos Estados Unidos e pendurar a sua cabeça num poste (essa última parte eu inventei LOL). Claramente a tensão era enorme, imagine você.

Buscando popularidade e reconhecimento um bando de adolescentes mimados grupo auto nomeado como Novos Guerreiros criaram um reality show à la Polícia 24hrs acompanhando o trabalho de caça aos vilões. Mas claramente esse show televisivo (patético) começa a feder quando eles descobrem o esconderijo de quatro fugitivos que são Impiedosa, Nitro, Speedfreak e Homem Cobalto. Namorita (filha de Namor, o equivalente ao Aquaman da DC) os segue e Nitro, como seu codinome diz, causa uma explosão gigantesca que mata cerca de 900 pessoas incluindo os Novos Guerreiros e crianças que residiam em Stamford.

Após os trágicos acontecimentos que causaram comoção nacional, Tony Stark está claramente sensibilizado e após a retaliação do povo para com ele e os Vingadores os culpando diretamente pelas mortes, Tony se vê em um dilema sobre salvar vidas, mas sobretudo como salvá-las corretamente provocando o mínimo de danos possíveis. Apresentado a um projeto do Governo Americano chamado Lei de Registro em que o alvo eram os super-heróis, buscando solucionar a questão de como controlar seres sobre humanos sem confiar em seu próprio discernimento evitando assim dores de cabeça como essas (as Meninas Super Poderosas tem uma sorte por estar em Townsville!). Bom, alguém precisava colocar regras!

É nesse mote que o projeto se apoiava, propondo a revelação das identidades e um treinamento adequado em troca de que eles poderiam continuar fazendo o que fazem, mas com uma diferença, herói a partir de agora seria uma profissão assalariada como qualquer outra e o Governo poderia lhes dizer o que poderiam fazer e não poderiam.

Tony Stark/Homem de Ferro fica desse lado e personagens como Reed Richards/Homem Elástico e Hank Pym/Homem-Formiga também, com a opinião de que essa regulamentação seria benéfica em seu objetivo final que é salvar vidas. Mas como em qualquer democracia há aqueles que discordem e veem isso como um tipo de afronta governamental pois assuntos como salvar vidas e muito menos dizer-lhes o que é melhor não lhes dizem respeito, e desta opinião compartilham Steve Rodgers/Capitão América, Matt Murdock/Demolidor, Sue Storm/Mulher Invisível e o inseparável amigo Sam Wilson/Falcão.

Infelizmente os direitos do Quarteto Fantástico pertencem a FOX pois seria bem interessante ver o casamento de Sue e Richard rachado por essa lei, mas falando em burocracia, o personagem fundamental para dar ao leitor uma visão própria personificada numa história que os dois lados tendem a terem a sua razão é o Homem-Aranha, e quem leu a HQ entende muito bem a importância dele para a história e porque a Marvel se esforçou tanto em trazê-lo para seu universo cinematográfico.

Peter Parker é o herói que mais se assemelha a nós, leitores. Um jovem nerd do subúrbio cheio de dívidas que perdeu os seus pais em um trágico acidente e seu tio pela violência urbana, e tendo somente sua idosa tia como o único alicerce familiar, ele trampa em um emprego tedioso com um chefe chato na cola mas suficiente para pagar suas contas de modo suado, e claro, no meio tempo ama platonicamente uma garota que ele conhece desde os tempos do colégio. Esse jovem de repente ganha super-poderes de aranha e se vê capaz de salvar a cidade e o mundo, me diga se você não ficaria confuso com tudo isso? Então imagine se você afetado por essa lei se visse no meio dessa guerra dos maiores heróis que você conhece na terra (tô falando da Marvel e não da DC besta)?

Os diversos dilemas do Aranha na história não só personificam o leitor também envolto em dilemas, mas as decisões tomadas por ele agem como um filtro, nos ajudando a entender melhor os prós e contras de cada um dos dois lados, em seus pensamentos e sentimentos, tendendo ora pra um lado ora pro outro, assim como ele. Trabalhado como coadjuvante, o Aranha se sai bem em nos exemplificar como pessoas são pessoas e que não é o heroísmo que faz os ter maior razão, heróis como Tony Stark personificam bem isso claramente manipulando o Aranha para alcançar seus objetivos.

Não vou falar a merda que aconteceu pra acontecer a esperada mudança de lado do Aranha na história, até porque julgo que o que todos estão esperando é como a abordagem do filme será ao tratar disso, além da decisão final para cessar a guerra e quem vai morrer (se morrer) - o que é um benefício direto da palavra "adaptação", já que as diferenças entre a HQ e o cinema são gritantes apesar de terem o mesmo direcionamento que beneficiam diretamente a nós, que temos a HQ, a novel lançada ano passado e o filme.

Bom, não escondo a ninguém que eu e este blog são #teamcap desde sempre e odiei o final da HQ, mas eu passei a respeitar ainda mais o Capitão América depois da maior Guerra de todos os tempos. Não estamos mais em 1940 como Stark alerta, mas as condutas são as mesmas. =)

PS: Foi anunciado o lançamento da HQ Guerra Civil II que colocará frente a frente Homem de Ferro e Carol Danvers/Capitã Marvel em uma pegada mais envolta em ficção científica. Aguardemos!

Resenha Filme: Clube de Compras Dallas


Hoje dia 23 foi liberado pela Câmara a posse, uso e prescrição da fosfoetanolamina sintética, mais conhecida como a "pílula do câncer", independentemente da regulação prévia da Anvisa. Decisão fortemente criticada por oncologistas que veem na liberação da substância uma pressão mais pública do que técnica, o fato de ela não ter passado por todo o longo e minucioso processo de testes em humanos como qualquer outra droga, abre o precedente perigoso do "efeito placebo", que pode fazer pacientes abdicarem do (penoso) tratamento tradicional tornando-se um risco aos mesmos.

A fosfoetanolamina é uma substância que imita um composto que existe no organismo, identificando as células cancerosas e permitindo que o sistema imunológico as reconheça e as remova. Pesquisas sobre o medicamento vêm sendo feitas pelo Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP) há cerca de 20 anos, contudo sem a regulamentação da Anvisa impedindo qualquer tipo prescrição a não ser a própria liberdade do paciente de buscar um tratamento alternativo por um "meio ilegal".

Temos de um lado o desespero por pessoas que abruptamente veem suas vidas sem uma perspectiva e que no remédio tem uma última esperança, e de outro a medicina que funciona na base secular do teste e da comprovação com o objetivo de acabar com qualquer dúvida em quem procura tratamento. Então o que vale mais, a liberdade sobre seu próprio corpo ou as regras da ciência?

Temos o direito de ir e vir garantido por lei, mas se não houver algum tipo de regulamentação, convenhamos que isso que conhecemos de sociedade ou de vida praticamente não funciona. Imagina você ter uma grave doença e tomar chá de boldo da vovó achando que isso vá lhe curar a curto prazo? Essa tática do chute se chama efeito placebo e é exatamente essa a missão da medicina como ciência, acabar com qualquer dúvida. Somos donos de nosso corpo mas menos que pensamos, afinal, você não conserta seu braço quebrado ou confia cegamente no Google pra tratar sua cirrose. Mas agora vamos tender pro outro lado, para o puro desespero e descrença na própria medicina que através de seus laboratórios - que provavelmente tenham uma máfia que escolham o que deve-se curar e o que não deve-se. Sabemos muito bem que esse mundão que vivemos é regido pelo dinheiro e nem sempre as pessoas que jugamos ter boas intenções tem realmente essas boas intenções, então quem garante que a fosfoetanolamina não funciona mesmo? Aí fala mais alto a questão da liberdade e do até então inexistente bom senso que o governo deveria ter pressionando os laboratórios a estudar essas pessoas que julgam terem sido curadas pela substância, pois testes em humanos já foram feitos e pelos próprios pacientes que foram as cobaias, não?

Isso é mais ou menos o que se discute no filme baseado na história real de Ron Woodroof (Matthew McConaughey). O desregrado eletricista viciado em drogas, sexo e apostas após um acidente de trabalho se descobriu portador do vírus HIV, e pior, em um estágio avançado da doença que lhe dá apenas 30 dias de vida. A época era 1985 e o preconceito com a doença era altamente grande na sociedade, assim como a falta de informação que tinha a doença rotulada por "ser de gay" e exatamente por isso o preconceituoso Ron se via relutante já que ele acredita que héteros como ele eram supostamente "imunes" negando qualquer tipo de tratamento que lhe é oferecido.

Sozinho e envolto por uma contagem regressiva angustiante, Woodroof também não apresenta grandes melhoras com o AZT (única droga disponibilizada na época) e pronto para se entregar de vez a doença, ele resolve partir para tratamentos alternativos não-tóxicos, legais ou ilegais. Vendo sua vida ser prolongada e sua melhora da sua saúde muito pela sua decisão em abandonar o AZT, é motivado a proporcionar o acesso a essas medicações a outros portadores através do Clube de Compras Dallas, assim, sem querer, se tornando um ativista da causa.

Assim como questão da fosfoetanolamina aqui no Brasil, o filme aborda principalmente as nuances das decisões de Woodroof em "desafiar" a medicina que só via o AZT como penoso tratamento mas que por causa da burocracia tanto de laboratórios como da justiça, impedia desesperados pacientes de ter um outro tipo de tratamento que não fosse esperar sua própria morte. E o filme bate forte na questão do governo se julgar o dono da razão ao começar a lutar contra os remédios importados por Woodroof ao invés de juntamente com os pacientes do Clube de Compras procurar uma melhor solução para tratamento, ou em outras palavras, cuidar melhor de seu povo chegando a um denominador comum, preferindo-se percorrer a linha do rigor da lei ao invés de enxergar o porque aquele movimento estava acontecendo. Mas ao longo do filme vemos que o conluio dos interesses escusos da indústria farmacêutica juntamente com o governo que a todo custo procuram impedir na justiça que pacientes procurem tratamentos alternativos buscando uma qualidade de vida melhor, é sempre mais implacável, mas não invencível na luta pela vida.

Hoje McConaughey é bem mais conhecido do público como sendo um excelente ator dramático, mas até "Clube de Compras Dallas" ele era apenas um mero ator de comédias românticas bonitão. Porém neste filme que lhe rendeu o merecido Oscar de 2014 vencendo Leonardo DiCaprio, o ator foi formidável, não só pela sua total entrega ao papel em retratar um soropositivo perdendo mais de 22 quilos, mas também pela desconstrução do rude Ron Woodroof que ao longo do filme nos conquista plenamente ao, na jornada de uma luta pessoal contra a doença, acabar se tornando um herói florescido de uma alma totalmente desprezível que vemos no começo do filme.

Já a "liberdade poética" da história real de Woodroof é vivida pelo travesti Rayon (Jared Leto) que tem a missão de introduzir na vida Ron a comunidade gay (a mais afetada pelo HIV na época) e nos apresenta também diversos temas daquela parte da sociedade altamente marginalizada e que sofre até hoje com esse preconceito. O irreconhecível e magérrimo Jared Leto nos entrega uma atuação que chega a ser emocionante e extremamente cativante ao dar vida a um sofrido personagem que na sua inegável irreverência, motiva e muda a perspectiva de Woodroof como pessoa e dá ao filme o tom descontraído por lidar com um assunto tão sério. Até confesso que após ver esse filme eu tive a sensação da real dimensão do talento de Jared como ator e é reconfortante pensar no que ele pode fazer como Coringa no vindouro "Esquadrão Suicida". =)

O grande mérito de "Clube de Compras Dallas" é negar o tom documental que uma história real poderia ter focando numa suposta "luta" de Woodroof contra a doença e contra a justiça, mas sim através de uma edição esperta realizada na direção de Jean-Marc Vallée optar por simplesmente se basear na história de Ron Woodroof aproveitando para abordar o preconceito sofrido pelos soropositivos como ele, que ao longo do filme é simplesmente abandonado pelos seus amigos de beberrões e homofóbicos como ele que chamam Woodroof de viado e se negam a apertar a sua mão. Essa intolerância é a verdadeira doença.

Vídeo mostra os efeitos especiais fantásticos de Deadpool!

Vídeo mostra os efeitos especiais fantásticos de Deadpool!
...E uns pitacos sobre Batman Vs Superman.

Sempre disseram pra você fazer muito com pouco.

Com um orçamento considerado baixo para os padrões dos "filmes de super-heróis", Deadpool transformando isso e outras coisas em piada, não só se tornou o filme que quebrou todos os paradigmas ao faturar mais de US$ 200 milhões de doletas americanas mesmo sendo para maiores de 18 anos (ganhando o prêmio honorário dos filmes de terror de baixo orçamento que faturam milhões com dedinho na boca), como que com cerca de míseros US$ 50 milhões foi capaz fazer justamente o muito com pouco, contratando apenas dois X-Men e demonstrando pra nós uma CGI de qualidade aliado a um roteiro de qualidade honrosa ao herói - para efeitos de comparação Lanterna Verde teve US$ 200 milhões gastos e olha só a merda que deu. Os roteiristas sacaram que o que move o Deadpool são as piadas e assim o fizeram, sem frescuras indo direto a ação.

Acredito que você já se pegou pensando nisso. Nessa onda de corrupção endêmica aqui do Brasil, o acontecimento Deadpool me faz pensar se estamos vivendo uma época de valores inflacionados. Não, não estou de forma nenhuma dizendo que Hollywood é superfaturada pelo Maluf ou o vermelho da Marvel foi dominado pelo PT, mas que a questão é pertinente é.

Jogando outra comparação ao texto, a super-mega-ultra-produção de Zack Snyder Batman Vs Superman teve um orçamento altíssimo de cerca de US$ 250 milhões fora o marketing agressivo que gastou cerca de US$ 150 milhões, e os executivos da Warner estão literalmente se cagando nas calças se perguntando se o filme irá pagar esse valor e engravatados creem que estimativa seja de US$ 800 a 1 bilhão em bilheteria para ser considerado um sucesso. Pessoalmente acredito que o filme se pagará, mas se com sobras, aí é outra historia amigo. Star Wars sendo o que é nem chegou a US$ 2 bilhões.

Obviamente que Batman Vs Superman como filme que une os dois maiores heróis da terra (+ Mulher Maravilha + Flash + Ciborgue dando AQUELE empurrãozinho pro filme da Liga da Justiça) não teria pouco orçamento, e bom, se querem fazer bem feito algo que invistam dinheiro porra. Mas entenderam o ponto que quero chegar? Dinheiro pode garantir CGIs espetaculares, mas neeeem de longe garante qualidade ao filme e muitas vezes os engravatados esquecem que os roteiristas tem que serem competentes a se atentarem a esse ponto. Deadpool portanto tem que servir de bom exemplo.

(Quem diria que estaria falando bem da FOX assim?!)

Mas enfim, em Zack Snyder eu confio!

Pois bem, esse vídeo liberado no Vimeo pelo canal VFX Breakdown, que é dedicado a mostrar os trabalhos milagres feitos pela CGI no cinema, demonstra o fantástico trabalho feito nas cenas de ação do filme do mercenário tagarela que tanto amamos.

Penso que os atores ainda são grande parte do processo e Deadpool é Deadpool no cinema porque Ryan Reynolds incorporou o cara, mas não é de se negar que a CGI cada vez mais substitui o trabalho de dublês e atores fazendo daquelas cenas de ação verdade absoluta aos nossos olhos.



Tirinhas da Semana #270

Resenha Livro: Escuridão Total Sem Estrelas (Stephen King)


Através de quatro contos, perturbadores e inquietantes, Stephen King revive perguntas em nossa mente e levanta outras questões morais. Em narrativas fortes, ele nos abre os olhos para o terror de cada dia e principalmente o terror de cada um. Na dificuldade, ninguém sabe o que é realmente pode ser; e se é daí o que pode se florescer de melhor, igualmente, pode florescer o que há de pior.

É basicamente do que se trata o conto 1922 (e o que mais gostei), que inaugura o livro. Ambientado no começo do século XX nos bucólicos campos do interior dos EUA, o conto não só deixa claro as duras penas culturais da época que cobravam tanto das mulheres como dos homens, mas principalmente conta como a ganância e orgulho podem levar uma pessoa através do caminho da escuridão. 

Tendo divergências em relação as terras aonde moram por causa de uma proposta financeira indecorosa, enquanto a mulher quer sair dali para o mundo para sentir a brisa e a agitação da cidade, o seu marido, acostumado a vida no campo, simplesmente quer ficar ali aonde a vida está de acordo, colhendo estação após estação as plantações que as suas terras lhe proporcionam. No meio disto está seu filho, cujo único propósito é manter suas amizades e ficar próximo da garota que ama, filha pródiga da família da fazenda vizinha. Contudo, a vida tomará outro caminho totalmente inesperado quando o marido convence seu filho, seduzindo-o pelas suas vontades primordiais, a uma solução que dará um fim a tudo isso.

Em Gigante no Volante, num terror surpreendentemente ágil pelo seu teor carregado e psicológico, somos transportados a uma história de violência, paranoia e vingança, deixando claro como não há limite para a brutalidade humana e que essa está aonde menos esperamos. 

Uma famosa escritora é convidada para dar uma palestra em um lugar desconhecido até então para ela. Até aí tudo bem. Só que o cenário muda cruelmente quando no meio do caminho parada em um posto, um homem oferece ajuda para trocar o estepe de seu carro. Estuprada e tomada pela natural paranoia e sede de vingança, ela usa os personagens de seus livros para chegar até aonde quer e os caminhos sórdidos que ela vai percorrendo a levam para uma surpreendente revelação.

Usando de experiências pessoais para escrever Extensão Justa, Stephen King sempre passava em uma área próxima ao aeroporto e via vendedores vendendo qualquer tipo de produtos que se poderia imaginar. Um de seus prediletos era O Cara da Bola de Golfe, que percorria os campos de (dã) golfe para recolher as bolas perdidas e revendê-las a um preço... justo. 

Tendo toques sobrenaturais, o conto é bastante curto tão quanto traz repulsa ao questionamento que rapidamente nos traz, sendo assim, não se tornando necessário dar mais detalhes da trama. E o questionamento que ele nos traz é o seguinte: o que é realmente justo? Mas o fundamental, o que você faria no lugar do personagem se alguém lhe oferecesse a mesma proposta? Por mais ruim que a pessoa lhe fosse para você, o que faz essa decisão ser justa? Porque ela mereceria tal desejo?! Bom, nesses momentos de ebulição política não duvido nada de que a Dilma ou o Lula fossem envolvidos nesta situação, mas volto à pergunta e ao cerne do conto, a inveja pode ser encaixada entre a justiça e o merecimento? 

Um Bom Casamento é o quarto e último conto e é de todos, o que mais se aproxima da realidade por ser algo que ESTÁ acontecendo, não algo que PODE acontecer. Trabalhando com a semente da dúvida, Stephen King através dessa história nos pergunta o quanto realmente podemos julgar conhecer alguém. O amor sobreviveu e dia após dia renasce no casal protagonista, mas quando num "tropeção" a esposa acha sem querer evidências sobre um passado sombrio daquele homem que doce que tanto ama, passamos ao seguinte questionamento junto com ela: será capaz de o amor sobreviver a tal revelação?

Há inúmeros tipos de terror e diversos escritores, sendo Stephen King o mais notável deles, se tornaram famosos por destrinchar o gênero ávidamente pelos olhos de cada fã e leitor, até mesmo provocando pesadelos aos mais imaginativos. No entanto, no livro de contos "Escuridão Total Sem Estrelas" King se aventura na forma de terror mais aterrorizante que existe, e que escondida, toma vida na ausência da luz que o titulo deixa claro; e esse terror não é o sobrenatural, esse terror se chama nós. Em cada sentimento, em cada prazer, em cada gesto de morbidez, em cada ato; no lado mais sombrio da alma humana. Onde tomada, passa ao terreno onde não existe nada, nem piedade e nem justiça; mas que ao mesmo tempo é atormentada pela consciência.

A evolução dos duelos de sabre de luz mostradas em um incrível documentário!

Narrado por nada menos por Mark Hamill ou Luke Skywalker (voz do Coringa) pouco antes de lançamento do "Despertar da Força, esse excelente documentário feito pela ESPN sobre a evolução dos duelos de sabre de luz conta um pouco mais sobre as origens e influências que fizeram nascer as cenas mais marcantes da saga.

O documentário conta sobre a enorme admiração de George Lucas pelo cineasta Akira Kurosawa, sobre a relação da filosofia do controle do corpo, mente e espírito que Yoda nos ensina e tem direta relação a filosofia que os samurais também tem pra si - algo que é bem exemplificado no isolamento de Luke entre os episódios V e VI, que buscou canalizar seu ódio para derrotar seu pai Darth Vader -, e sobre os duelos especificamente, que diretamente relacionados a arte marcial do kendô, ganhava velocidade e técnica a cada filme (tornando-se no último capítulo bem mais agressiva).

Infelizmente o documentário está em inglês e não há versão legendada, mas acredito que os versados na saga irão compreender bem o que se mostra ali.

Fantástico e fundamental para fãs de Star Wars!


Que a força esteja com você, sempre. =)

Resenha Filme: Her (Ela)


Particularmente sou uma pessoa reservada, mas na minha adolescência eu era uma pessoa bem mais tímida e difícil de se relacionar, portanto o meio natural que mais me utilizava para interagir com diferentes pessoas sem precisar "dar a minha cara a tapa" era a internet. Lembram dos finados MSN e Orkut? Aposto de que você os utilizava com os mesmos fins que eu e achava pessoas que negavam ter esse contato digital como pessoas chatas e caretas.

Porém com o passar dos anos vi que essas pessoas amigas em sua maioria não permanecem, claro, todo mundo cresceu e criou outros círculos, provavelmente tendo a amizade com você reduzida a uma mera contagem no Facebook. Creio que a fase adulta apresenta outros parâmetros e te força a trilhar outros caminhos na forma de ser. Hoje em dia sou uma pessoa bem mais extrovertida e simples, e pessoalmente prefiro muito mais uma mesa de bar e olhar no olho de quem estou conversando, dando mais possibilidade a uma boa e verdadeira amizade florescer do que me esforçar pra ser compreendido corretamente usando smiles em chats. Não tenho mais paciência pra tal e nem pra pessoas que moram longe.

Traçando esse paralelo, me imagino se não tivesse conseguido lidar com meus problemas e tivesse ido para o outro caminho, me tornando uma pessoa muito mais introvertida e fechada em mim mesmo - algo recorrente na sociedade em que vivemos. Qual seria meu escape de realidade? A internet, ou o Tinder, como quiser.

É consenso de que o Google cuida melhor das nossas vidas do que nós mesmos. Ele nos acorda, nos diz como está o clima da cidade pra não esquecermos do guarda-chuva, organiza nossa música, agenda nossas tarefas diárias, nos lembra dos aniversários de quem gostamos, nos diz o melhor caminho pra ir pra casa... enfim, acha tudo que precisamos na nossa vida (menos o controle remoto). Dizem que ele só falta falar. Ops, peraí. E a Cortana?!

Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) sempre teve dificuldades de expressar o que realmente sente e muito por isso seu casamento com Catherine (Rooney Mara) terminou. Naturalmente desiludido com o fim do casamento com alguém que ele tinha como amiga de infância e inseguro em relação a ele próprio, atualmente Theodore vive uma vida solitária e reclusa entre os jogos de vídeo-game e seu trabalho, ironicamente escrevendo cartas de amor para pessoas com dificuldades em expressar os seus próprios sentimentos.

Sendo introvertido e solitário como é, Theodore vê apenas a tecnologia como a sua aliada no dia-a-dia na tentativa de fazer novos contatos e encontrar, quem sabe, uma mulher que ele possa se relacionar, possivelmente tão solitária como ele. Mas infeliz pelos insucessos nos encontros a cega que ele teve com a personagem de Olivia Wilde e pelos interações via bate-papo com a "gatinha sexy" (Kristen Wilg), ao descobrir nas suas andanças solitárias uma propaganda publicitária sobre um novo sistema operacional com inteligência artificial que prometia uma nova interação com seu usuário, bota a prova sua curiosidade adquirindo o sistema pra ver qualé que é dessa "evolução do Google".

A questão aqui é que essa nova OS promete ao usuário uma interação mais pessoal, permitindo que o mesmo evolua e se adapte conforme interage com o usuário. Mais ou menos o que o Google Now faz, não sendo tão amplo, claro. Decidindo que a OS teria uma personalidade feminina, Theodore passa a conhecer Samantha (Scarlett Johansson) e a medida que os dois vão se conhecendo, e logo Samantha se moldando a Theodore, os dois iniciam um estranho e incrível relacionamento trazendo sentimentos novos e conflitantes aos dois. E é aí que está a cerne da questão que o filme aborda.

A medida em que Theodore e Samantha vem experimentando diferentes e conflitantes sentimentos que naturalmente cercam uma relação afetiva, a medida que Samantha vem experimentando o sentimento de ciúmes adquiridos por ela sobre Amy (Amy Adams), a melhor amiga de Theodore, ela também começa a se questionar se ela aprendeu a amar Theodore ou se isso se estava embutido em seu sistema, mas o mais pertinente, se sentir esse amor que ela aprendeu a sentir era realmente necessário.

Sutilmente o longa aborda de forma profunda as relações amorosas e como nos sentimos frágeis e vulneráveis ao final delas, preferindo muitas vezes abrir mão de nós mesmos ao investir em relacionamentos que notoriamente não vão dar em nada, ao invés de aproveitarmos a liberdade para investir em nós mesmos e em como aproveitar melhor nossa própria companhia. E todos que terminaram um namoro recentemente ou vivenciaram isso, como eu, irão reconhecer em Theodore uma identificação instantânea.

No caso do filme, Samantha é uma OS e Theodore naturalmente sabe disso, e que como Amy alerta em certo momento, ele também sabe que no fundo que essa "relação" não vai dar em nada; mas ao mesmo tempo em que Samantha preenche algo que Theodore a muito tempo não sentia, involuntariamente cega Theodore do detalhe que a própria OS tem a função primária de aprender a suprir as necessidades de seu usuário, no caso o amor, e evoluir de acordo com as experiências que vai interagindo. Portanto, não demora muito para Samantha perceber que o amor que ela sente transcende Theodore e qualquer uma das 61 pessoas que ela passa a amar mas que sobretudo é um sentimento que deve servir primariamente a própria evolução do seu ser, algo que Theodore também deve aprender para seu bem.

Estrelado por Joaquin Phoenix (que interagindo apenas com uma voz o tempo todo nos entrega uma atuação brilhante) e dirigido por Spike Jonze, "Ela" merecidamente ganhou o Oscar de 2014 como melhor roteiro original ao tratar desse paralelo entre a tecnologia e o relacionamento humano, mas principalmente como essa tecnologia que aproxima tanto as pessoas tomando conta de nossas vidas ao mesmo tempo em que também vai nos afastando dessas mesmas pessoas, tornando-as potencialmente vazias através das nossas inseguranças criadas pelos nossos relacionamentos.

Será mesmo que precisamos da internet realmente pra tudo? "Ela" me fez questionar muitas coisas e outras que observo, de como o smartphone vem tomando contas das mesas de bares, nos tornando distraídos e dispersos para muitas atividades da vida. Parece até besteira, mas é só observar. Obviamente o Google não chegou ao ponto de conversar com a gente, mas com meus botões imagino que pra isso talvez seja uma questão de tempo, afinal, dedicamos nossa existência a aprimorar cada vez mais o nosso conforto e bem-estar, correto?

Em uma cidade tecnológica e cinzenta de pessoas tipicamente vestidas como nos anos setenta sob decorações hipsters, de cara se percebe como tudo aqui é sem identidade, como a vida de Theodore e a de tantos outros que acabam por terem incertezas preenchidas por alguém que nem existe. Onde ficção e realidade se misturam, "Ela" traz à tona na nossa imaginação:

E se o Google ou o Windows realmente falassem? E se além de saber nosso caminho pra ir pra casa e das nossas viagens, soubessem o caminho de nosso coração?