Resenha Série: The OA (1ª Temporada)


Para muitos, os sonhos são apenas vislumbres às nossas lembranças mais recentes, para outros é uma manifestação intensa dos nossos desejos mais profundos, e para outros ainda é uma fonte poderosa de premonições. Independentemente do que você acredita, os sonhos e seu significado são ainda cercados de mistério e o único consenso existente é da paz que eles são capazes de trazerem.

Cercados dessa rotina cada vez mais estafante, são nas horas de sono que encontramos a tranquilidade que despertos não conseguimos sequer chegar perto de encontrar. É talvez aí que o constante desejo de fuga do próprio ser seja mais aflorado.

Nessa estranha série "The OA" (OA = Original Angel), Prairie Johnson (Brit Marling) é a personagem que confronta essa dor de não pertencimento à realidade em que vive ao mesmo tempo que é nos seus sonhos que acredita ter algo melhor a esperando, em uma outra realidade.

Nina Azarov/Prairie Johnson/OA é uma garota filha de um magnata russo que após um acidente, por questões misteriosas, tem sua visão totalmente perdida e nos EUA é adotada pelo casal Abel (Scott Wilson) e Nancy Johnson (Alice Krige) e em busca de seu amado pai biológico vislumbrado através de seus sonhos, acaba desaparecendo por longos sete anos, e volta agora, por questões ainda mais misteriosas, enxergando. Há muita resistência da moça em contar o que realmente lhe aconteceu e porque desapareceu por tanto tempo. E "The OA" gira em torno disso.

A estranha garota com cicatrizes horríveis nas costas acaba reunindo cinco discípulos - Steve Winchell (Patrick Gibson), traficante de drogas e bully da escola local, Alfonso “French” Sosa (Brandon Perea), um garoto que luta para cuidar da mãe e ao mesmo tempo destacar-se nos estudos, Buck Vu (Ian Alexander), um menino transgênero, Jesse (Brendan Meyer), um jovem sem perspectivas e Elizabeth Broderick-Allen (Phyllis Smith), uma professora que acabara de perder o irmão gêmeo – que acreditem piamente nela e nós temos que seguir esse mesmo caminho. E nesse "senta que lá vem história" todo, somos convidados assim como eles a mergulharem nessa história, hora acreditando piamente, oras servindo de apoio a nós, questionando se aquilo tudo tem alguma veracidade.

"Existir é sobreviver a escolhas injustas."

Em comum, todos tem a fuga dentro de si, desejando ir para fora do seu ser numa crença às vezes cega e esperançosa de que a sua mera existência não seja só aquilo e que algo a mais deva ser reservado a eles; não por suposto merecimento mas pela perda de sentido se suas vidas, ou pela perda de alguém amado ou pelo desgosto sobre a humanidade. É na busca esperançosa e cega de Prairie pela tal dimensão, que naquela casa, ironicamente, se abriu uma outra, aonde eles se encontraram numa empatia quase que inigualável e que finalmente, em torno de algo que eles nem sabem o que é, puderam se sentir finalmente ligados a alguém. Demonstrando que a conexão emocional, muito mais que a física, é uma questão de sobrevivência; assim como pra Prairie mesmo.

Confrontando ciência com misticismo e espiritualidade, "The OA" fomenta as discussões filosófico-transcendentais através da abusiva pesquisa de Hap (Jason Isaacs) sobre a EQM (experiência de quase-morte) de uma forma direta e crua. Afinal, a ciência é para pisarmos mais firme onde estamos ou para voarmos ainda mais alto, descobrindo coisas que fogem ao alcance do entendimento da própria ciência? Aliás no que Hap crê? A verdade é que talvez por mais que haja ciência e explicações, talvez nunca entendamos nossa mera existência. E no seu antagonismo residido no universo bem particular de Prairie, na sua obsessão quase apaixonadamente doentia por descobrir algo que o fascina, é aonde a série se sustenta e acaba funcionando tão bem. 

Num ritmo sempre cadenciado que tropeça às vezes no limiar da prolixidade (principalmente na primeira metade), a série acaba roubando totalmente a nossa atenção. Apresentando oito episódios e produzida por Brit Marling (sim, a Prairie) e Zal Batmanglij e que teve sua estreia no último dia 16 exclusivamente pela Netflix, "The OA" tem uma lógica invertida que logo de cara nos coloca sob os olhos da personagem. Guardando um começo e um final que gera críticas automáticas, que eu mesmo me peguei em diversos momentos no momento WTF?, é dentro de sua estrutura que a história faz todo sentido nos levando a caminhos corajosos, questionando nossas próprias crenças e desafiando o espectador a pensar "fora da caixinha".

Resenha Cinema: Rogue One - Uma História Star Wars


Quando a Disney comprou a LucasFilm ficou evidente que a única e maior franquia da produtora seria explorada o máximo possível. Como somos catastrofistas e reis e rainhas do drama, algo que se atreve a mexer com a nossa nostalgia e principalmente com uma franquia tão sagrada entre os nerds de plantão seria naturalmente encarado como uma afronta, com a frase tipicamente bradada, com espada e escudo na mão: "Mickey aqui não! É golpe!". Não pera.

Exageros a parte, a compra da Pixar pela mesma Disney anos atrás provou tudo e mais um pouco sobre a Disney não ser burra com suas propriedades, entendendo perfeitamente que a liberdade de criação nunca deveria ser invadida simplesmente deixando lá seu dinheiro render como uma poupança bem lucrativa (vide Marvel). E tem sido assim. Portanto, o anunciado spin off não me preocupou em nenhum momento; e dado a quantidade imensa de material em cima dessa franquia, eu sabia que a expansão de Star Wars seria muito bem aproveitada e bem sucedida. História não falta, e "Rogue One" é o primeiro movimento dessa empreitada, tentando interligar apenas um dos vácuos que o cânone deixou.

Para começar é bom dizer aonde nos situamos. "Rogue One" é simplesmente aquele rodapé do quarto episódio "Uma Nova Esperança" (tá ligado aquelas letrinhas que passam no início do filme?) e portanto se situa na época de uma declarada Guerra Civil. Após os eventos do episódio III que contou sobre um Anakin sucumbido pelo lado negro, encontramos uma situação em que os Jedis estão virtualmente extintos juntamente com a queda da República. Logo, o Império agora governa a Galáxia com mãos de ferro e os agora Rebeldes tem como única e maior esperança o roubo dos planos de construção da Estrela da Morte. E é isso.

"Rogue One" não é nenhuma continuação e nem introduz algum mínimo aspecto para o vindouro episódio IX. E talvez esse seja o seu maior mérito, por não ser literalmente uma expansão de universo.

Gareth Edwards se limitou em apenas contar uma boa história de Star Wars de fã para fã; sobre o que aconteceu e sobre o porquê aquilo aconteceu. Fazendo um filme sem um mísero sabre de luz (exceto na hora que entra Darth Vader, porque ele pode tudo) funcionar como um digno Star Wars; Gareth abriu um leque maior de possibilidades de roteiro e encaixou o filme perfeitamente na sua proposta de "cola" ao explicar como os planos chegaram até Leia Organa e como, por exemplo, Luke Skywalker (o Rogue One de seu tempo) acertou aquele maldito buraco não por um golpe de sorte em cima de um erro de engenharia. Pois é, e eu xingando aqueles engenheiros a minha vida inteira...

"Rogue One" acaba se tornando mais divertido se você tiver assistido a todos os outros filmes e o fim naquela porta se liga perfeitamente a "Uma Nova Esperança". Você vai se esbaldar nas frases, nos personagens, e em diversos easter-eggs espalhados que fizeram meus olhos brilharem e momentos em que soltei um hell yeah bem dado. O famoso e nutritivo leite azul apareceu cara!

Com efeitos visuais perfeitos e sendo o Star Wars que foi mais longe na imaginação ao apresentar planetas simplesmente lindos, o defeito maior tenha sido a protagonista. Obviamente "Rogue One" é um filme com a missão bem clara de sair de um ponto A até um ponto B, sem continuação, sem mais, até sem até a música tradicional de abertura. "Rogue One" não se mistura, logo, Jyn Erso (Felicity Jones) e todos os outros personagens já tinham a sua missão como o verdadeiro esquadrão suicida. Nenhum deles faz parte do cânone e todos estariam condenados a um fim, contudo, a Jyn como protagonista não se mostra em nenhum momento carismática o suficiente para nos envolvermos diretamente com sua história e talvez nesse sentido o filme tenha sido pobre, até o supostamente secundário Cassian (Diego Luna) um desenvolvimento maior. Mas felizmente esse é o menor dos problemas. Funcionando bem sozinho como o Star Wars mais cru e visceral, "Rogue One" vai pro pau, como o melhor filme de guerra intergalactica que você pode assistir hoje.

Disseram que esse é o melhor Star Wars, mas discordo veementemente. Sem os outros filmes, este não funcionaria. Recomendo que você assista a uma, duas vezes. Sendo fã, você irá aplaudir em todas as oportunidades.

Como diria Érico Borgo do Omelete: "Eu quero fã e quero service!"

Você precisa assistir esse live action do Super Mario Maker

Sem dúvida a coisa mais legal da internet, na verdade da tecnologia em geral, é a possibilidade das pessoas fazerem por seus personagens prediletos o que a detentora do direito deles talvez nunca tivesse cogitado fazer com o intuito de divulgar o que ela tem de mais valioso, e dando a pessoas comuns e talentosas o aparato que só Spielberg tinha a 20 anos atrás. Claro que falamos de Mario e Nintendo.

Esse sensacional live action do Super Mario Maker feito pelo canal MyNameIsBanks é o vídeo mais legal que você poderá assistir hoje!


Bonus track porque eu sou bonzinho e isso é legal pra caralho também!:

Resenha Filme: Ponto Final: Match Point


"Match Point" começa assim:

“O homem que disse: prefiro ter sorte a ser bom, entendeu o significado da vida. As pessoas temem ver como grande parte da vida depende da sorte. é assustador pensar que boa parte dela foge do nosso controle.”

Desde que o ser humano se reconhece como um ser pensante usa seu raciocínio para prever o futuro. Somos naturalmente racionais e por mais que não reconheçamos de uma forma geral, nós detestamos o destino no fundo de nossos âmagos. 

Convenhamos que é simplesmente perturbador a ideia de não controlar o próprio destino, de sermos marionetes num grande jogo da vida como se fôssemos peões no banco imobiliário, no entanto, essa incerteza que nos move, ao mesmo tempo nos perturba ainda mais. Precisamos saber do nosso futuro, saber o que de bom e de ruim nos reserva para nos prevenirmos diante aos acontecimentos; necessitamos de um conforto de uma predestinação com o intuito de sempre darmos importância para cada uma de nossas ações. Uma parte de algo maior sempre. De uma explicação para o inexplicável quase que nos obrigando a sentir que "deus quis assim" diante da dor e a tristeza inaceitáveis. Como ateu, entendo a importância de crer em algo além por mais que eu tenha meus conceitos como inabaláveis.

Em vida, dizem que a sorte nada mais é do que o encontro da oportunidade com a capacidade, em outras palavras, o encontro entre a oportunidade que lhe é dada como causa de uma escolha e da capacidade de usufrui-la de forma que possa gerar outras possíveis escolhas. Contudo, reside justamente na sorte a ideia de que não temos destino, de que a ideia de vivermos um jogo nos propicia a coragem pra tentar, e deus nada mais é do que um afago que tornam as escolhas diárias menos pesarosas. 

“Há momentos em que a bola bate no topo da rede e por um segundo ela pode vir para o outro lado ou voltar. Com sorte ela cai do outro lado e você ganha. Ou talvez não e você perde”.

Mas voltando a sorte em si e a coragem que ela nos propicia, o 50/50 de chance de dar errado ou certo é a filosofia principal de Chris (Jonathan Rhys-Myers), um ex-jogador frustrado de tênis que vai para Londres e se torna um professor de tênis em um clube frequentado pela alta classe britânica.

Não demora muito para Chris ser convidado por um dos alunos, Tom (Matthew Goode), para conhecer sua casa e sua família, que acaba rapidamente se afeiçoando a ele e vê na irmã de Tom, a sem sal Chloe (Emily Mortimer) a oportunidade perfeita de um quebrado poder ingressar de vez na alta classe britânica. Em uma das festas constantes da família de Tom, ele encontra Nola (Scarlett Johansson), a namorada dele e, abalado pela beleza estonteante dela, logo se apaixona e se sente completamente atraído por ela. O lance é que rola uma química irresistível entre os dois, atraídos também pela conveniência de eles estarem naquela família por vislumbrarem um futuro melhor para cada um.

De um lado Nola representa a vida, o real; de outro Chloe representa a vida confortável, o social; no meio de tudo isso está Chris, um sujeito puramente sem caráter. No entanto, focado substancialmente em seu golpe de sorte e na supressão da vontade de algo improvável em favor da aceitação de uma realidade que ele não queria colocar a perder, ele faz sua escolha preferindo a sorte do que ser bom e contando de que talvez que esse golpe de sorte também o salvasse, afinal, a classe social influi muito sobre a justiça. 

Em suma, Chris escolhe uma estabilidade e conveniência que compõem uma realidade, que se não é perfeita, lhe proporciona algo que ele não tinha antes, mesmo que essa vida seja sem graça e planejada em seus mínimos detalhes - o que fica evidente na parte em que Chloe se sente mal por todas as amigas terem filhos e ela ainda não ou aceitando os ciúmes a desconfiança de uma traição de Chris em favor de um bem maior que era o casamento. 

Essa atmosfera criada por Woody Allen bate num ponto: a escolha. São pequenas escolhas que podem afetar o futuro, às vezes de maneira irremediável; pequenas decisões de 50/50% que podem conspirar tanto à favor como contra nos levando a ideia da sorte e nos fazendo relembrar da cena da rede no início do filme, numa linha de pensamento simples em que tanto faz o quanto você pode se esforçar ou simplesmente ter a iniciativa de tentar, as situações estão fora de nosso alcance e as escolhas são simplesmente apontamentos que podemos dar a esse caso, em suma, a sorte sempre vai nos regir de maneira implacável. Woody Allen provoca uma discussão interessante ao espectador atrelando toda a vida do personagem a essa torta situação, como na cena já no final do filme em que ele se livra do anel e mais uma vez somos confrontados pela ideia da rede.

"Match Point" não tem aquela virada surpreendente na história, mas guarda uma outra discussão profunda sobre nossa existência. A fuga tanto de Chris e tanto de Nola nesse louco caso revela o desespero da fuga da realidade dos dois na busca por uma fagulha de vida, mas racionais o suficiente para planejar a própria morte. 

Resenha Filme: Um Estranho No Ninho


O valor da liberdade só é realmente medido pelo o quanto dela você busca ter; se você acredita a ter, é quando não a tem de verdade.

E numa sociedade atual em que a nossa própria liberdade é trocada por obrigações e benefícios que nos levam a ter uma virtual sensação deste estado, o premiado longa de 1976 "Um Estranho No Ninho", na talvez mais espetacular atuação de Jack Nicholson, nos lembra o valor dessa libertação e da necessidade de enfrentar o sistema e a vida, para buscar os momentos de felicidade na quebra de regras que nos ditam sempre o que fazer para ter uma vida supostamente melhor.

Numa alegoria perfeita de Governo x Povo tão leve quanto carregada de seriedade, Randall Patrick McMurphy (Jack Nicholson) é um condenado que finge ter um problema mental para ser transferido para uma clínica psiquiátrica para avaliação. Com os dias se passando, McMurphy vê os internados numa rotina estafante de remédios, descanso, recreação e jogos de cartas para seu suposto bem e o bem de todos que estão ali, e na rotina de enfrentar diariamente esse status quo personificado na serenidade e crueldade da "vilã" enfermeira Ratched (Louise Fletcher), ele promove sempre as mais variadas atividades talvez para ele mesmo não enlouquecer, mas sobretudo para deixar a vida daqueles internados um pouco mais normal.

E naquele branco enlouquecedor do hospital, entende-se perfeitamente como espectador que é só a liberdade que é capaz de fazer cada um de nós sentir-se vivo. No longa, a sensação de liberdade e a prisão constante daqueles seres nos faz perguntar: quem é realmente o louco dali? Como naqueles momentos em que McMurphy fala com o paciente surdo-mudo Chefe, causando a pergunta se ele está fazendo aquilo para ele mesmo não enlouquecer, ou se ele está realmente ouvindo o Chefe dizer alguma coisa. É louco quem tenta ir contra as regras do hospital da Enfermeira Ratched ou tenta ir contra elas proporcionando aos pacientes o verdadeiro sabor da vida?

Essa sensação sufocante de dúvida de quem é o louco, nos faz mergulhar ainda mais na história que em nenhum momento esconde sua mensagem real, ao mesmo tempo que deixa claro também que McMurphy em seu jeito impulsivo e raivoso é o responsável pela quebra daquela rotina. Mas sobretudo o que rouba a cena no longa e é o que dá ainda mais força ao roteiro são os carismáticos pacientes, que presos em seus próprios tempos, protagonizam as cenas mais agonizantes e aquelas mais engraçadas no filme transformando-os em nossos amigos também.

É impossível não se deliciar e torcer por cada um deles (entre eles Danny DeVito e Christopher Lloyd) para esses terem junto com nós a sensação que temos de sentir o vento no rosto e poder assistir a um jogo de futebol, saindo de toda essa loucura que é infligida naquelas paredes; alegorizando nossas paredes de nossa casa e do trabalho, da rotina diária de todos nós. Nos fazendo entender de que talvez, o louco seja apenas aquele que está perdido em um oceano de sua razão, escolhendo aceitar seu estado e vivendo suas próprias circunstâncias.

O longa nos faz abraçar a loucura e refletir acerca das nossas vidas, pois quem nunca se sentiu o "estranho no ninho" alguma vez?

Resenha Filme: Amnésia


São as lembranças que constroem o que um homem. Mais importante do que olhar para o futuro, é imprescindível lembrar do passado, pois é justamente esse lapso de tempo que nos dá um sentido para viver; e isto é o que chamamos de presente. À rigor, olhar para um futuro significa nada mais do que continuar vivendo.

Resumindo, o filme dirigido por Christopher Nolan e roteirizado por seu irmão Jonathan, "Amnésia" é um filme comum a partir de uma construção normal da cronologia das cenas, porém o que o torna tão genial é sua coragem em estabelecer justamente o sentimento que o personagem acaba sentindo que não é saber do que aconteceu a minutos atrás. Então o que podemos falar de um filme construído de trás para frente, propositalmente para nos fazer sentir na pele de Leonard? É comum a sensação de "ahhh, isso agora faz sentido". Contar dele, seria estragar tudo aquilo que ele tem. 

Como se fossem peças de um jogo, temos Leonard (Guy Pierce), Natalie (Carrie Anne-Moss), Teddy (Joe Pantoliano), um tal de John G que estuprou e assassinou sua mulher, roubou aquilo que Leonard amava e aquilo que o fazia ser o que é. Em certa hora Leonard sentado no carro coloca lado a lado as fotografias de Natalie e Teddy, e anotado nas fotos com palavras diferentes está: "não confie nas suas mentiras". Em quem então acreditar? Quem é amigo? Como então julgar? Leonard nos diz que seu mundo desaparece quando fecha os olhos;

Em um momento do filme,ele também nos confessa que é o condicionamento que o faz viver com sua condição; sem a lembrança, são os fatos que o mostram a verdade, mesmo com as repetidas perguntas. Indagado, ele diz que as lembranças são traiçoeiras, desde a cor de um carro até as palavras que alguém nos disse, a verdade não pode ser a verdade. Assim, Leonard tira fotos e transforma as anotações em fatos. Então mais do que os fatos serem fatos, os fatos são A verdade, afinal, não dá pra modificar o que se vê numa foto. Naquele momento, Leonard dá a entender isso sobre as lembranças de um ponto geral de um investigador, é delas que podemos fazer o que quiser. 

Resta as anotações, as tatuagens. Mas chega um momento em que isso não está funcionando. Nem para nós. Quem é o vilão? Quem é o mocinho? Seria o condicionamento de Leonard por fazer decidir por ele viver sua vida repetidamente? São muitas perguntas.

Agora pare por um segundo e pense como seria viver uma vida sem ter ideia do que ocorreu a momentos atrás, preso pelas teias do que acreditamos ser a verdade. Seria aterrorizante, seria sufocante. 

Você precisa assistir "Amnésia" para construir sua verdade.

Resenha Série: Westworld (1ª Temporada)


"Westworld" é uma série adaptada por J.J. Abrams, Jonathan Nolan e Lisa Joy do filme homônimo de Michael Crichton de 1973 que conta sobre um parque temático aonde ricaços passam suas férias imersos em um mundo de velho oeste com robôs caracterizados. Então se baseando nessa ideia, a série desenvolveu amplamente as questões filosóficas que esse circo armado nos apresentou. Não nos dando mais detalhes, temos aqui um mundo entediado em que o desenvolvimento tecnológico nos levou a um futuro em que ninguém mais morre de alguma doença ou fatalidade, quer dizer, perdemos o contexto principal que o medo da mortalidade move a vida para termos sido transformados em meros livros de um começo meio e fim inalterados.

O mundo é recheado de insatisfeitos e a imagem e semelhança em que somos criados é através de um... erro. Quer você ou não, fomos criados por uma conjunção de erros, uma dose de sorte e de coincidências astronômicas que a maioria das pessoas relutam a acreditar, julgando a perfeição de um milagre que talvez sejamos mesmo... O fato, é que "Westworld" é nada mais que o reflexo de uma realidade, uma historinha contada para a humanidade dormir em mais uma tentativa de elas serem o que no fundo elas queriam ser, fazendo aquele lugar mais real que o real de fato. Um erro que nos faz errar ainda mais.

Nos livros de história, diz-se que a revolução industrial modificou totalmente o mundo no século XVII e posteriormente no século XIX. Mudamos nossa forma de consumir, pensar e agir; nossas vidas se tornaram mais práticas e logo mais automatizadas, e entendo que o que pensamos de rotina e sociedade nada mais é do que uma conjunção de fatores que levam à automatização; vivemos para trabalhar, ter sucesso, criar e morrer; para a vida seguinte a nós fazer a mesma volta seguidamente. E é interessante perceber como o parque simplesmente serve para refletir o jogo da vida e a transformar em um jogo para viver, aonde nessa construção para a derrota, moralmente os anfitriões (máquinas) que são feitos para se encaixarem em um loop infinito, são mais humanos que os visitantes. 

Certo que o parque foi construído para o desejo de os seus usuários revelarem seus instintos mais sujos e imorais, como cometer assassinatos e praticar estupros, em busca de uma desesperada vivacidade perdida na invulnerabilidade, em que o suicídio é o único escape de abreviação da vida. Portanto, a pergunta aqui a ser feita é o que os humanos se diferem de uma máquina? Seria sua biologia, seria sua capacidade de raciocínio? Sua autoconsciência de ser? Afinal, o que devemos viver? É aquilo que é programado ou devemos viver realmente aquilo que queremos? A série não nos diz sobre o mundo real em que os humanos vivem, mas é certo que esse desenvolvimento tecnológico exemplificado na série aproximou uma máquina de um humano tão intimamente que apenas a mortalidade serve para diferenciar um de outro, não o sentido de sua existência.

Podemos especular muitas coisas a respeito desse futuro distópico, mas acredito que "Westworld" trabalha principalmente sobre a liberdade e faz uma reflexão acerca ao desenvolvimento da consciência e do pesar que a escolha pela liberdade inflige. Falando amplamente, a liberdade não se dá somente pela conquista da escolha, mas é alcançada plenamente no domínio do próprio intelecto e do desenvolvimento de uma ampla consciência da realidade que vive e naquela em que poderá viver. E é justamente na programação dos robôs do parque da Delos é que percebemos também que a consciência por si só é um fardo da humanidade. É como diz o Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins) a Bernard (Jeffrey Wright) no S01E09 "The Well": “nunca confie nos humanos, eventualmente eles vão te decepcionar”.

A forma cartesiana de pensar é uma forma de padronizar o que sentimos através de um desenho geométrico, uma linha traçada como se ela nos servisse para exemplificar a vida sobre as reviravoltas através de suas ondas e o sentido inalterável da vida através da reta que é. Descartes dizia que se pensamos, logo existimos; e se eu existo, sou alguém por completo. E a verdade surge através da dúvida e da dedução, e é da dedução que surgem as escolhas; e a escolha é aquela que muda tudo. 

E em talvez seu melhor papel na sua longa e gloriosa vida, Anthony Hopkins constrói um poderoso Dr. Ford na personificação mais exata do desejo do ser humano de se aproximar e ser também um deus, dando o sopro da vida ao mesmo tempo em ele desenvolve uma paixão tão grande com suas criações ao privá-las da perfeição naquilo que mais nos faz humanos: a autoconsciência e por consequência a dor, em talvez mais uma tentativa de entender o sentido e a criação da vida. E sobre isso, numa conversa de Bernard (Jeffrey Wright) com Dolores (Evan Rachel Wood) no S01E10 "The Bicameral Mind" sobre a autoconsciência: "Ela não é uma jornada para o topo, mas para dentro" ou na fala de Dr Ford para o mesmo Bernard sobre uma perspectiva da pintura "A Criação de Adão" de Michelangelo no mesmo episódio: "O dom divino não vem de um poder maior, mas das nossas mentes", e aí temos a demonstração perfeita que no final das contas de que a verdade e a compreensão absoluta está somente dentro de nós.

Prevista para ter cinco temporadas, "Westworld" é uma belíssima e divinamente bem construída série que aborda questões complexas sobre a existência em um roteiro em que Nolan e Lisa Joy demonstram saber exatamente aonde querem ir, porque ir e para onde devem ir, não proporcionando ao espectador um segundo de distração por um ritmo mais lento ou em que as peças deixem de se encaixar em seu final apoteótico em que o detalhe mais interessante e incomum é ter sido sem ganchos, mas ao mesmo tempo suficientemente forte para despertar a nossa curiosidade do que poderá acontecer dali pra frente. 

Empatia

Resolvi começar esse texto com uma imagem ilustrativa verdadeiramente criativa e singela. Sem escudo, sem luto, sem tristeza e desolação de quem ainda chora; mas sim com as cores, com os traços tortos, com a aplicação de um mero trocadilho sincero rendendo-se às homenagens.

Hoje aprendemos mais uma vez o que é empatia.

Chapecó está a mais de 800 quilômetros de São Paulo, mas a empatia deixa a cidade aqui perto. Entre comentários desrespeitosos de gente que não perde a piada mesmo que oportunista e sem graça alguma nas latrinas intelectuais que são chamadas de caixa de comentários da G1 ou mesmo no Facebook lotado de gente que adora ir contra a comoção, aprendemos mais uma vez que numa tragédia a empatia é algo muito maior e que a verdadeira empatia não é desmerecer gravidade dos fatos.

Com essas tragédias como vemos o ser humano pode ser cruel também. Que prega que sofremos por condicionamento dizendo “ah, e quantos morrem diariamente e ninguém liga?", como se houvesse classificação entre seres humanos. E é quando a verdade acaba se revelando na exaltação pela diminuição da comoção da tragédia dizendo que ela ocorre diariamente, aos poucos. 

Concordo, a tragédia é a violência desmedida existir, sim. Um pai que chora, os negros que morrem diariamente... há boeings representando diariamente os caixões carregados. Mas a tragédia choca, machuca; é como a paixão e o amor, há diferenças que não anulam um e outro. É diferente o choque de lamentar-se pelas mortes diárias de sonhos interrompidos dessa forma. 

As pessoas adoram minimizar o que não acontece com elas e pregar de que apenas elas fazem o "moralmente certo" quando na verdade, estas é que nem estão nem aí com ninguém. Contudo, é nesses desastres, nas tragédias de sonhos interrompidos que poderiam acontecer com cada de nós é que percebemos a capacidade de mobilização das pessoas em torno de uma solidariedade e demonstra o quanto os povos são realmente cercados de compaixão no mundo inteiro. A verdadeira empatia é sentir o que o outro está sentindo - e como foi comovente a homenagem da torcida no jogo do Liverpool hoje num silencio sepulcral. 

Passei o dia comovido hoje, porque percebia que a Chapecoense era mais que um time e a gente via a simpatia de longe. Era uma cidade toda envolvida e abraçada em torno de um esporte que muitas vezes pode parecer besta, irrelevante e se mostra por diversas vezes mais que um jogo. 

Empatia é isso, é nos importarmos com sonhos interrompidos, lamentar pela tragédia de ver um time de futebol, uma cidade e por consequência, uma paixão ser arrasada. É o mundo inteiro se importar, são colegas de profissão lamentarem, jornalista e jogadores, e ajudarem a reconstruir um caminho de ascensão que vinha sendo tão bem sucedido. Tragédias como essas escancaram a nossa empatia, ensinam lições, provocam reflexões e revelam como somos capazes de sentir algo melhor, muito melhor. É clichê, mas a vida vale muito pouco. 

Com o tempo a Chapecoense se reerguerá e vencerá de novo assim como cada um de nós se estivéssemos marcados pela tragédia como cada um dos que ainda sobrevivem. Mas a maior empatia que poderia surgir, é que com essa comoção, a Chape se tornou não somente um time. 

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Mesmo que Black Mirror tenha perdido com a sua popularizada nessa terceira temporada produzida pela Netflix a característica do choque (que ao lado de uma ácida reflexão provocavam um rebuliço em nossa cabeça suficiente pra não conseguir assistir outro episódio da série em seguida), a série ainda sucinta muitas discussões (nos dando aquele tapa na cara bem dado) e ainda mantém aquilo de mais importante: falar da tecnologia exagerando o presente. Sim, o presente. E costumo dizer que Black Mirror é aquela série da coceirinha eterna justamente por isso.

No episódio que abre essa primeira temporada chamado "Nosedive" discute-se o conceito de tecnologia aplicado à sociedade, falando do óbvio, mas abrindo um leque de discussão milenar que é a ânsia de notar e ser notado e como a tecnologia serve pra potencializar isso no sistema em que vivemos chamado sociedade.

Lacey (Bryce Dallas Howard) é a típica usuária de redes sociais - que eu e você conhecemos muito bem - e que passa o dia postando o melhor do seu dia para mostrar relevância e suposta felicidade de uma vida perfeita. No episódio, temos um app que simplesmente funciona como avaliador em tempo real do que você é para a outra pessoa; portanto, valerá de tudo para que você cause essa boa impressão alheia e aumente sua nota como se as relações sociais fossem um joguinho, não importando que isso seja moralmente falso.

Assim que a história vai se desenvolvendo, Charlie Brooker trabalha três em cima de três temas relevantes: em pessoas em que o número de shares e likes ditam sua vida provocando uma falsificação constantemente da sua realidade, a dificuldade e por muitas vezes a negação das pessoas em se relacionarem, e a elevação, e por consequência, segregação social que esses tais números provocam.

Basicamente você é o que você posta, não importa se aquilo está sendo real ou se é seu verdadeiro pensamento, vale o número de curtidas e compartilhamentos: como o Twitter por si só que sobrevive dos piadistas de ocasião. E sobre isto, a piada aliás só faz sentido se várias pessoas rirem, isto é ligada ao ego num fio que leva até a nossa felicidade e tudo isso nos leva ao consumismo tecnológico.

Obviamente você não curte algo triste e sim feliz, portanto daí é apenas um passo para que momentos sem sentido muitas vezes apareçam na sua timeline; é a satisfação de compartilhamento de momentos, de ver as outras pessoas curtindo o que você está comendo unido com a inveja que você possa provocar por este momento.

Isso vai de encontro ao sistema de ranqueamento social que "Nosedive" trabalha através de seu app em um flerte com a classe média imergida problema bastante comum, que é o desejo de pertencimento.

Lacey deseja sair da casa do irmão e vê uma casa em um bairro de classe média-alta que é o sonho propagado, mas como se não bastasse a surpresa dela quando a corretora lhe mostra o preço do aluguel esta também lhe diz que para o negócio ser fechado é necessário que ela tenha uma pontuação de 4.5 quando Lacey tem apenas 4.2.

Na brincadeira inocente, o sistema de pontuação ficcional do app meio que passa desapercebido por você diariamente, isto é, no mundo real você demonstra que a outra pessoa é legal curtindo algo dela, ou voltando mais no tempo, avaliando como sexy, legal, e confiável da época do finado Orkut. Afinal, o que mais seria o recado do "amei" numa selfie sua? Voltando a "Nosedive", em outras palavras, só é digno de morar ali quem está adequado a esta nota independentemente de seu valor social. Se o app ranqueia as pessoas na ficção, o que mais então significam nossas roupas na vida real? Já vemos evidências claras disso em sites de relacionamentos que só elegem pessoas que sejam de uma classe social maior vasculhando os perfis sociais buscando um padrão. Como disse, Black Mirror brinca com o presente.

Precisamos ser notados, precisamos da felicidade; e isto leva muitas pessoas a não serem o que são. Isto vai desde aqueles que criticam a ideia até aqueles que abraçam a mesma ideia, como o irmão da Lacey, que na briga que tem com ela corre para o app para ver a sua avaliação e avaliar negativamente a irmã num gesto de vingança. A ameba que critica a ameba por ser ameba está no mesmo barco.

Criticar é pop e por isso há tantos canais desse tipo no Youtube, o falem mal mas falem de mim nunca foi tão válido pois a popularidade se baseia em nada mais do que buscar pessoas que criticam tanto quanto você o sistema, sendo que você mesmo usufrui disso, como o irmão dela. Só que por mais falso e mesquinho que isso seja, o assunto merecedor de todas as críticas e revoltas que ocorrem desde que o homem aprendeu a fazer fogo faz parte de todos nós, isso é o que queremos.

Oras se detestamos tanto a elite, por que então queremos levar uma vida como elas? Por que passamos a vida criticando youtubers que ganham milhares de reais falando bosta sendo que "você faz isso de graça" diariamente? (Demonstrando na fala aquela pontinha hipócrita de inveja unida ao desprezo). O que vale no sistema em que vivemos é a propagação da sua ideia, dançarmos de acordo com a música, mas principalmente a satisfação que as suas ações lhe trazem.

Em outras palavras, o foda-se.

Resenha Cinema: Animais Fantásticos e Onde Habitam


Ambientado no início do século, mais precisamente no ano de 1926, quase 70 anos antes do ano em que se passa a história de Harry, (o nome mais legal dos últimos tempos) Newt Scamander (Eddie Redmayne) desembarca em Nova York com apenas uma maleta. Bom, antes de prosseguir, digamos que Newt é um viajante "adestrador de monstros... fantásticos", um tipo de treinador Pokemon que coleta esses monstros que são muito ameaçadores para o mundo dos trouxas, basicamente para estudá-los e criá-los em sua maleta mágica servindo de lar a esses monstros fantásticos. 

Logo de cara, a vida de Newt é cruzada com a de um trouxa (ou no-maj como na nomenclatura norte-americana), Jacob Kowalski (Dan Fogler), que numa tipica confusão "chapolinesca" acaba trocando de maletas com Newt, assim dando início a confusões do barulho quando este, curioso, acaba abrindo a maleta. Mas antes de Newt descobrir a troca dos monstros por rosquinhas de um padeiro sonhador, a questão é que por ele ter usado da magia com um trouxa leva-o a ter problemas com o Congresso Mágico dos Estados Unidos (Macusa) que tem leis rígidas sobre a questão de segredo de bruxos x trouxas.

Dividido em duas partes, o filme tem representado na recuperação do (capricorniano) pelúcio (que rouba a cena literalmente) essa divisão da parte inicial, e mais divertida do filme, para a segunda parte, mais séria e por consequência mais emocional, que difere ainda mais a ideia que veríamos "mais do mesmo" para uma aventura que apesar de ser ligada ao bruxo, acaba se desenvolvendo sozinha ao dialogar com este público da série, agora já crescido, sobre questões mais sérias e constantemente atuais que pedem uma interpretação mais ampla que expandem a sempre abordada tolerância nos livros do bruxinho. Como a migração que é contextualmente interpretada logo no início do filme somente no olhar do policial para um suspeito bruxo inglês; e política, na questão das diferenças entre o Ministério da Magia de Hogwarts, mais progressista, e a Macusa, bem mais rígida, aceitando até pena de morte como julgamento (alô republicanos). Claramente se configurando numa crítica feroz a sociedade americana. s2

Isso não só desenvolveu a história naturalmente, mas aproximou a fantasia de Hogwarts agora para uma "realidade" mais mundana, fazendo a precisa função de oxigenar o universo bruxo para mais quatro (já confirmados) ou mais filmes abrindo sorri$os de orelha a orelha do pessoal da Warner.

E nesse contexto de tolerância aliás, o filme ganha força com seus personagens tão diferentes e complementares entre si. Como o deslocado Newt em relação ao relacionamento humano, a burocrata Tina (Katherine Waterston) que serve como ponte de Newt para o Congresso dos Bruxos, sua irmã Queenie (Alison Sudol) que lê mentes e consegue tirar de Newt informações que ele nunca revelaria, e o trouxa Jacob, que não só é o excelente alívio cômico do filme, como é aquele personagem que serve justamente para te trazer ainda mais perto do filme, sendo leigo ou não, para o mundo da magia ao reagir fascinado a cada movimento de varinha como justamente agiríamos se a gente pudesse entrar numa mala. Como ele mesmo diz: "Será que eu estou sonhando? Eu não teria imaginação pra isso...".

Já no outro lado temos Mary Lou (Samanta Morton) como a presidente implacável do Ministério, Percival Graves (Colin Farrell) que acaba por se revelar um fascista, o traumatizado Creedence (Ezra Miller) e Grindewald (Johnny Depp, em mais uma versão esquecível, agora rápida, do pirata bêbado qual você sabe qual é). Girando em torno de Newt, os dois núcleos claramente representam a luz e a escuridão, e o roteiro dá espaço a todos eles, explorando seus clichês, seu humor e seus medos confortavelmente, nos fazendo pisar em um terreno confortável.

Posso dizer que a sensação mais próxima que tive ao assistir no cinema "Animais Fantásticos e Onde Habitam" foi a plena de satisfação. E cara... como é gostoso sair assim do cinema sem muitas perguntas e sem busca de possíveis respostas, um reflexo direto do roteiro da escritora estreante nessa função que é simples mas se revela complexo na medida certa provando o quanto a escritora é habilidosa na arte de dosar terror com fantasia que na direção de David Yates (já familiarizado com o mundo do bruxinho) ganha ainda mais vida.

Em tempos aonde temos filmes de super-heróis para todo lado e a realidade decai sobre os ombros quase que numa obrigação, como se os personagens tivessem que serem críveis o suficiente para encaixá-los ao nosso mundo, mesmo que esses fossem apenas heróis, apenas ficção sobretudo. O spin-off de J.K Rowling sobre o mundo dos bruxos vem em boa hora para nos relembrar que fantasia também pode ser apenas... fantasia.