Resenha CD: Scalene - Éter

quinta-feira, agosto 13, 2015


É comum, principalmente nos tempos atuais, julgarmos que tudo que toca na televisão não presta. As justificativas acerca esse tema são complexas e vão muito além da simples revolta que temos porque o artista que gostamos nunca vai a programas da televisão. Além de ser um meio de comunicação extremamente popular, os programas simplesmente usam a questão de mercado da "oferta e procura", ou seja, de tocar o que o povo quer ouvir. Contudo nessa onda reality shows que são o que o "povo quer ver", o Superstar tem sido pelo menos pra mim um destaque na tão nebulosa Rede Glóbulo.

Não vou mergulhar nas teorias de conspiração de gente ligada no Facebook, de que as votações são falsas porque a Rede Globo manipula absolutamente tudo o que vemos e acreditamos ser verdadeiro.

Só que, salvo a desconfiança da marmelada, o reality não só tem grandes méritos em se aproveitar muito bem do alcance em massa que a emissora tem para nos apresentar a música brasileira de hoje que é sub-aproveitada, justamente pela lei de mercado que falei no parágrafo anterior, mas sobretudo em proporcionar a oportunidade do estrelato a bandas que estão a anos na estrada e sabem muito bem que para ganhar evidência é só no boca-a-boca. Se as bandas vão mostrar um real talento e se sustentar no mercado musical que absorve e descarta artistas cada vez mais rápido, é outra história. E no caso da vice-campeã da segunda edição, a banda Scalene, fiquei satisfeito em ver, finalmente, algo especial e surpreendente; ao contrário da romântica Malta que foi vencedora da primeira edição.

E quando se fala do rock aqui no Brasil logo se pensa em dois estilos, ou é punk ou é indie. Felizmente o Scalene não se encaixa em nenhum desse rótulos, apresentando uma sonoridade bem alternativa e moderna inspirada em Queens Of The Stone Age, Them Crooked Vultures e Muse.

"Éter" é o nome do segundo álbum da banda brasiliense que está na estrada desde 2009, e ele traz um conceito bem interessante por trás de seu nome. Éter remete ao termo usado desde a Grécia antiga para a hipotética substância que preencheria o vazio do universo e seria o meio de propagação da luz e era considerada um quinto elemento, mais leve e estável, que harmoniza os elementos clássicos: água, fogo, terra e ar.

O Scalene não reinventa a roda e recicla bastante as características das bandas internacionais que os inspiraram, no entanto, tais (ótimas) influências mescladas ao bom MPB brasileiro, e principalmente de seu vocalista e guitarrista Gustavo Bertoni, dão a singularidade suficiente para conquistar aos ouvidos mais exigentes.

Natural achar que tudo lá de fora automaticamente é melhor que o daqui, até porque a fase musical do Brasil não é uma das melhores e o complexo de "vira-lata" está aflorado nos últimos tempos por causa do 7x1, mas esquecendo o futebol, o Scalene não fica devendo em nada aos gringos. Com uma produção cristalina, faixas acompanhadas com ótimas letras como a "Sublimação" que ganhou clipe oficial, a moderna "Peso da Pena", a pesada "Histeria" e a de ótima levada "Fogo" fecham uma sequência inicial altamente respeitável - sem contar a ótimas "Náufrago" e "Terra" que fazem parte já da segunda parte do álbum.

Portanto, deixe a chatice de lado e dê uma chance para você mesmo de voltar a ouvir uma banda nacional de rock. O reality acabou por mostrar uma banda que vale prestar bastante atenção e que enriquece um pouco mais o pobre e esvaziado cenário do rock brasileiro.

Tracklist:

01. Sublimação (04:03)
02. O Peso da Pena (03:56)
03. Histeria (02:52)
04. Fogo (03:38)
05. Gravidade (02:52)
06. Furacão (03:21)
07. Terra (feat. Mauro Henrique) (04:24)
08. Náufrago (02:39)
09. Alter Ego (03:04)
10. Tiro Cego (03:11)
11. Loucure-Se (03:55)
12. Legado (02:45)

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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