O trailer como conhecemos já morreu

quarta-feira, janeiro 07, 2015


A ideia desse pequeno videoclipe criado para anunciar lançamentos de filmes ao público, começou lá em Hollywood no início do século. Mas ao contrário do que acontece hoje, naquela época os trailers eram veiculados ao final da sessão, entretanto não causavam impacto algum já que os espectadores não ficavam até o final dos créditos para assistir a tal cena (quem diria Marvel), então a partir de 1919 a National Screen Services pegou o formato pra ela e resolveu colocá-lo antes dos filmes, aprimorando o formato como "prévia" que exibia os primeiros minutos do filme para causar certo impacto ao público.

Com o passar das décadas, o formato se aprimorou, ganhou narrativa e roteiro, assim instigando a curiosidade do público e provando um sucesso midiático para a época. Nos anos 40, Orson Welles, diretor de "Cidadão Kane" reivindicou o direito da produção do trailer para si, quer dizer, reivindicou para si um controle do que seria mostrado e como seria mostrado e não somente ter cenas aleatórias do seu filme divulgadas.


Contudo foi nos anos 60, diretores como Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick redefiniram o uso do trailer. Em vez de apenas mostrar cenas do seu filme como promoção, eles tomaram a responsabilidade para si de roteirizar os trailers que exibiam dos seus filmes. Como "Dr Fantástico" de Kubrick (que puxava para um lado mais promocional) e "Psicose" de Hitchcock que só serviria para imortalizar a marca "Alfred Hitchcock Presents" nos inícios de seus filmes.



Nos anos 70 "Tubarão" de Steven Spielberg foi o primeiro filme com ação miática suficientemente forte para considerarmos como o formato mais próximo do que vemos hoje. Se você estava assistindo televisão nos anos 70 muito provavelmente você deve ter visto. Ao contrário de outros lançamentos que "invadiam" as pequenas cidades antes de ir para as grandes cidades, esse, partiu para a "invasão" do mundo. Obviamente o filme foi um grande sucesso, mas o formato do trailer contribuiu diretamente para isso. Lembra da musiquinha?


Em seguida trailers notáveis invadiram as telas, e nos anos 80/00, o formato de cortes rápidos e diretos tipo MTV funcionavam maravilhosamente bem em instigar o público, diria perfeitamente, e ai BUM, ele se transformou não só numa divulgação, mas em um tipo de entidade que respira até alheio ao filme. O trailer em si tem muito poder sobre as mentes inquietas que esperam ansiosamente seu filme favorito - ainda mais no mundo nerd. A internet é um meio cada vez mais ágil de informação, e a galera envolta nela, é cada vez mais ávido por coisa nova, sendo assim, os engravatados de Hollywood percebendo isso rapidamente colocam no ar "teasers-trailers"> o trailer do trailer. E pior ainda, só o "teaser", o trailer do trailer do trailer.

Apesar de parecer absurda essa ideia (e de certa forma é), se bem usada, pode gerar geniais peças de publicidade. Afinal, a ideia é instigar o público não é? Então se liga o teaser do Homem Formiga divulgado dia 2 pela Marvel:


Sinceramente evito assistir teasers-trailers dos meus filmes prediletos, entretanto este me chamou a atenção, e como chamou. A ideia de um teaser que é somente possível de ser visto por uma formiga é genial. Clap Clap! Mas foi aí que um engravatado da Marvel correu e disse: "Não, alguém tem que ver isso (e soltou um palavrão no final)!" e foi aí que divulgaram o mesmo no tamanho normal, com cortes de heróis e vilões sendo mostrados. Custava espera alguns dias pra causar uma surpresa com o teaser-trailer? Foi então que hoje como prometido, ele saiu:



Nem isso eles conseguiram, e olha que estou falando de um teaser-trailer, o trailer do trailer, Jogaram uma boa ideia pra algo inutil, no lixo. E olha que o teaser-trailer do "Homem Formiga" foi bem chocho e simples (como um teaser-trailer poderia ser, convenhamos).

Aí chegamos ao ponto que queria: noto que hoje dia falta "arte" as coisas - e olha que não estou sendo um tio chato em dizer isso. Trailers deixaram de ser uma "surpresa", deixaram de ter uma produção em lugar de meros cortes, de causar a "coceira" de dizer a si próprio: tenho que gastar dinheiro com isso. 

Claro que os trailers foram inventados justamente pra isso, pra você grande homem (ou mulher) jogar seu dinheiro fora e sua ansiedade em algo que talvez nem seja tão bom assim, afinal, tem filmes que podem serem resumidos em meros trailers e é aí que vem o lance dos cortes e blá. Porém, a cada vez que penso com meus botões, é cada vez mais porca a ideia de diminuir uma já pequena peça publicitária a meras migalhas só pra atrair alguns cliques e atenção, pois sabem que com a internet por aí, vão é divulgar e produzir qualquer merda e faturar com isso. Uma coisa é você saber através de um anúncio que vai ter um trailer, outra é os grandes estúdios de cinema controlarem o que você pode ver e não ver num trailer. Fato esse que mata a peça de publicidade em si, concorda?

"No meu tempo...". A medida em que vemos os anos se acumularem, essa frase torna-se comum para se referir a certos acontecimentos e evoluções - ainda mais por essa sociedade cada vez mais globalizada e mais bem informada. Sou de um tempo em que games eram vendidos em sua versão integral e onde trailers de filmes ainda causavam suspense... Mas o assunto dos games é pra outro dia. O fato é que "the time is money".

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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