Tirinhas da Semana #96

Resenha CD: Metallica - St. Anger

É interessante ver que a medida que o tempo passa, nos sentimos meio que "obrigados" a provar novamente aquilo que não gostamos. É tipo não gostar de cenoura na infância e ver hoje em dia que ela tem um gosto bom, além de inúmeros bens a saúde; e traçando um paralelo, com a música acontece a mesma coisa. 

Bom, pra termos opinião embasada de algo precisamos de duas coisas, saber viver a experiência, e termos um senso crítico que procure nos separar de rótulos pré estabelecidos em nossa mente. Sim, nossa opinião é implicitamente ligada ao nosso gosto, mas é aí que o senso crítico entra e separa isso da ignorância e fanatismo. É aí que entram os fãs mais chatos do planeta, os rockeiros. Para deixar claro antes que me coloquem na cruz, sou rockeiro e daqueles que curtem mesmo. Entretanto procuro separar isso da música em si, oras ela é boa ou ruim. É aí que voltamos a parte do senso crítico e o que me faz "provar" novamente a experiência de certos álbuns subestimados por mim somente pelo nome da banda, e uma dessas bandas é o Metallica.

Banda ame ou odeie, é o tipo de banda que tem um senso admirável de chutar a porta da opinião. Fazendo álbuns ruins ou bons, eles não querem saber muito da opinião final, os fãs mesmo são os que acompanham a banda. Entretanto tal qual o Iron Maiden, o Metallica anda vivendo do seu passado mais do que seu presente. Fato lamentável, mas que só mostra a força que a banda teve em produzir clássicos e agora não se limitar a fazê-los de novo, simples assim. É desse ponto que acho que o último trabalho "Death Magnetic" soa forçado apesar de bom, e que os trabalhos anteriores "Load/Reload" e "St. Anger" acabam soando até mais dignos perto dele justamente por terem uma cara. Se é boa ou ruim vai de você, e particularmente acho "Load" um ótimo álbum, isso claro, se você souber ver a música como boa e ruim. Mas agora vamos analisar o "St. Anger":

"St. Anger" foi fruto de uma época de muita instabilidade em que o Metallica vinha vivendo, inclusive com os chefões Lars Ulrich e James Hetfield batendo de frente e quase pondo um fim a banda. Brigas que deram resultado ao (vergonhoso) documentário "Some Kind Of Monster", a demissão de Jason Newsted, o produtor Bob Rock como baixista tampão, e a esse álbum.

Lembro como se fosse hoje... não, mentira. Só lembro que "St. Anger" foi meu primeiro álbum do Metallica.  Oficialmente aliás, o Metallica ao lado do Iron Maiden são as primeiras bandas de heavy metal que realmente virei fã, e no caso do Metallica, tudo por causa de uma coletânea que meu amigo me emprestou na época. Tinha 15 pra 16 anos na época e acabei pedindo pra minha mãe os dois primeiros álbuns de metal da minha vida, os dois últimos de cada banda, o cujo "St Anger" e o "Dance of Death" do Iron Maiden. Como era mais novo, acabava sendo influenciado do que tocava na MTV e essa é a única explicação de ter pedido esses álbuns pra ela, já que um tempo depois me desfiz do "St. Anger" por muitas músicas me desagradarem num todo. Resumindo, esperava um Metallica como daquela minha coletânea que começava com "Enter Sandman", seguia com "Sad But True", Wherever May Roam" e "Master Of Puppets", mas não tinha absolutamente nada disso. Decepção.

Mas agora resolvo escutá-lo novamente como fiz com "Load", e agora que cresci e amadureci, ter uma opinião realmente embasada sobre esse álbum difícil de engolir. Primeiro vamos nos desligar do nome "Metallica", ele é como uma maldição. Agora, as primeiras impressões de "St. Anger" são de que o álbum não é ruim, somente é muito mal produzido. A fúria e a bagunça que o Metallica vivia na época refletem bem nesse álbum. Mal produzido é a primeira palavra que vem a cabeça, e não é só a bateria de lata de Lars Ulrich, mas as guitarras abafadas, um Kirk Hammet descaracterizado sem fazer um só solo, e um James Hetfield mostrando preguiça em muitos momentos. Depois de ler esse último parágrafo você pode pensar: "esse cara é louco, é claro que o álbum é uma peça de merda". E mais uma vez digo, não. "St Anger" tem músicas boas sim, mas que sofrem muito detrás dessa má produção, e isso que quero tentar "provar".

A trinca inicial com "Frantic", St Anger" e Some Kind Of The Monster", além da "Sweet Amber" e da furiosa "Purify", são exemplos das ótimas faixas perdidas no meio de tantas outras que são longas demais ou só são simplesmente ruins, como a repetitiva "Invisible Kid" ou a rápida e sem graça "Dirty Window". Imagine-as essas primeiras com um melhor cuidado, com uma bateria decente e com um solo. A "Frantic" não me deixa mentir, já que no excelente bootleg "Live In Seoul" ela é tocada e Kirk improvisa um solo nela. Dê o play abaixo e veja se estou certo ou não. Atentem como é evidente a melhora da música em si.


Tendo influência descarada do malfadado "Nu Metal", moda no começo dos anos 2000 ou não, "St. Anger" não é um álbum tão ruim como todos apontam, só careceu de uma produção decente e cuidado de composição das músicas. É como se fosse uma demo lançada do fundo da garagem, é isso diria que é vergonhoso pra uma banda que tem o nome do Metallica. Também diria que "St. Anger" é como se fosse uma lata de ervilhas jogada por cima do lixo. Vai feder junto. O Metallica o fez assim e é assim que o álbum é visto, não tem nem como. 

Pra ser esquecido, e um dia quem sabe lembrado pra ser tocado ao vivo.

Tracklist:

1. "Frantic" 5:51
2. "St. Anger" 7:21
3. "Some Kind of Monster" 8:26
4. "Dirty Window" 5:24
5. "Invisible Kid" 8:31
6. "My World" 5:45
7. "Shoot me Again" 7:10
8. "Sweet Amber" 5:27
9. "The Unnamed Feeling" 7:10
10. "Purify" 5:14
11. "All Within my Hands" 8:49

Resenha Cinema: Na Estrada - On The Road

"On The Road" - Na Estrada
França / Brasil / EUA/ Inglaterra -  2012

Direção: Walter Salles
Produção: Francis Ford Coppola / Rebecca Yeldham / Nathanael Karmitz / Charles Gillibert
Gênero: Drama
Elenco: Sam Riley / Garrett Hedlund / Kristen Stewart / Kirsten Dunst / Viggo Mortensen / Alice Braga

"On The Road" ou "Na Estrada", é um livro escrito por Jack Kerouac nos anos 60 considerado até hoje um marco e uma referência para a "geração beat". Mas o que é "geração beat"? Digamos que são os famosos "hippies", geração que aflorou justamente nessa década, e o livro de Kerouac foi como uma bíblia para eles.

Jack Kerouac teve uma infância séria, onde era muito dedicado à mãe. Frequentou um colégio jesuíta e ajudou o pai numa fábrica de impressão. Mais tarde Jack conseguiu entrar na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, para onde se mudou com a família, e lá teve seu primeiro contato com seus amigos "delinquentes" que mais tarde formariam a conhecida "geração beat", entre eles Allen Ginsberg e William Burroughs, além do seu maior companheiro de viagens, Neal Cassady. Este recém chegado em Nova York, com sua esposa de 16 anos. Neal Cassady era um verdadeiro produto das ruas, passando sua infância e parte da juventude em reformatórios.

A relação de amizade do escritor com o amigo Neal, foi determinante para despertar em Jack sua vontade reprimida de botar o pé na estrada e desfrutar de uma liberdade ainda não experimentada - afinal, quem nunca quis isso e nunca teve coragem? Os dois viajaram por sete anos, saindo de de Nova York e cruzando o país em direção a São Francisco, com frequentes descidas ao México. Nessa jornada baseou-se a obra "On The Road", cujos protagonistas, Dean Moriarty e Sal Paradise, aludem a Cassady e ao próprio Kerouac. Experimentando formas mais livres e espontâneas de escrever, contando as suas viagens exatamente como elas tinham acontecido sem parar para pensar ou formular frases, Jack escrevia vários romances que ia guardando em sua mochila, enquanto vagava de um lado a outro do país. E assim surgiu "On The Road" como o conhecemos.

Dono de um estilo inovador de escrita, um Kerouac entorpecido de café e usando papel manteiga colados um a um fazendo assim um rolo, para não ter de trocar de papel a todo momento, sentou-se e teclou na sua máquina de escrever "On The Road" em apenas três dias. Sem parágrafos e sem pontuação em seu manuscrito original, Kerouac fundou ali um estilo inovador e de tirar o fôlego, assim como sua experiência. Sim meus caros, para quem leu e para quem viu o filme; para quem vivenciou somente um dos dois, ou os dois, pode interpretar facilmente que seu estilo reflete muito do que ele viveu nesses anos na estrada.

Nos anos 90 o famoso diretor Francis Ford Copolla ensaiou um projeto para um filme baseado na obra de Kerouac, mas foi pelas mãos do diretor brasileiro Walter Salles que acabou se concretizando nesse ano, com Coppola como produtor.

"On The Road" não é só uma obra auto-biográfica contando as desventuras de Neal e Jack, ou Dean e Sal, mas reflete a ideia da viagem que todos os jovens um dia sonham um dia em fazer, repleta de garotas, bebidas e, acima de tudo, liberdade. Quem nunca um dia sonhou em um dia chegar no trabalho e pedir demissão, simplesmente sem rumo, sem ter um porquê? Liberdade significa sair das amarras que a sociedade nos impõe para sobreviver. Fazer o que se quer e vivenciar o que se deseja, aproveitando cada momento que aparece. Eu sinceramente ainda tenho essa ideia, e "On The Road" é esse grito que ainda ecoa nos corações jovens por aí. a ambição de se viver e contar, sem arrependimentos, aquilo que mais tarde perto da morte, se arrependerá de não ter vivido.

Tendo como personagens principais, Kristen Stewart (Marylou) safada e vadia como se ela estivesse descontando toda vontade de transar que teve em Crepúsculo (apesar de ser sem sal, como ela É); Sam Riley (Sal Paradise) encarnando aquela parte de nós em que após pensar em o que fazer, mas que "taca um foda-se" logo depois; e Garret Hedlund (Dean Moriarty) nos entregando uma atuação irrepreensível de um jovem que não aguenta responsabilidades. O filme não é só uma obra cinematográfica em que procura se basear em um livro, mas é uma lição de grande amizade, e que como tudo aquilo que se viveu vale a pena. São momentos que mesmo em pequenas partes, lembra a nós mesmos, afinal, o que são nossos amigos senão donos de nossas grandes e maiores lembranças? Um homem sem amigos é um homem vazio.

"Na Estrada" é um filme que divide opiniões. Em festivais antes de estrear em cinemas brasileiros, o filme teve reações distintas aonde passava, talvez assim como a obra de Jack Kerouac; assim como toda a geração "beat" de escritores. Eu confesso que ainda não li o livro apesar de tê-lo em minha estante, e para quem leu, "Na Estrada", pode dividir ainda mais opiniões; já que toda adaptação nunca agradará a gregos e troianos. Todavia, o maior mérito que Walter Salles conseguiu com essa adaptação foi instigar o espectador, aqueles como eu, a ler o livro o quanto antes possível, saber de todos os detalhes, vivenciar ainda mais a experiência que ele conseguiu transportar para as telas. Ter o sabor de liberdade, mesmo que momentâneo, é por demais prazeroso; e Salles conseguiu isso tendo apenas uma tela de cinema. Particularmente, o filme, o livro, tocam o espectador que tiver esse grito de liberdade no peito. Eu tive um sorriso ao sair do cinema.

Voltando a parte das opiniões distintas. Como disse, elas refletem o que são os livros dessa geração, tal qual o que cada um conhece por liberdade. Muitos taxam de imoral, eu apenas fico estupefato. 

Particularmente, as palavras refletem a vontade do escritor, constroem um mundo em que podemos morar; na verdade em que moro. Jack Kerouac no caso, reflete o que viveu e o que pode conhecer da "liberdade". Com sua história e seu estilo de escrita, definiu uma geração; aquela "brisada", aquela sonhadora. Particularmente, entendo que Walter Salles aceitou o desafio, e conseguiu transportar esse sonho.

Resenha Game: F.E.A.R. 3 (Xbox 360)

Desenvolvedora: Day 1 Studios
Distribuidora: Warner Bros. Interactive
Suporte: Multiplayer online
Gênero: FPS / Survival Terror

Jogos de FPS (First Person Shooter) são a nova velha galinhas dos ovos de ouro da indústria gamer. Se nos anos 90 tínhamos os jogos de plataforma reinando soberanos, desde quando o 3D foi implementado no Playstation 1 e principalmente depois do lançamento de "007 Goldeneye" para o finado Nintendo 64 - definindo muito do que veríamos dali pra frente -, o gênero tomou forma e dominou de forma arrebatadora o mercado.

O que é um lado bom representando a evolução dos consoles tal qual os conhecemos agora, é também um lado ruim. Tal qual nos anos 90 em que tínhamos muitos jogos genéricos de plataforma, o gênero de FPS sofre um desgaste evidente de falta de criatividade e até falta de espaço pra isso mesmo; os "Call's of Duty" lançados a todo ano como se fossem FIFA's não me deixam mentir.

Eu como jogador, ainda sou a moda antiga, prefiro os jogos de ação e aventura em que o apertar de botões se sobressai, nunca fui muito fã de FPS apesar de um número assombroso de lançamentos alcançar o mercado. Não que o gênero seja ruim, claro que não. Tanto o enredo e os gráficos, como a ação de muitos jogos salta aos olhos; mas é que sinceramente "ainda" não tenho muita coordenação pra eles... Enfim, acabo sendo limitado a jogos em que possa jogar em multiplayer mesmo, seja contra, como Unreal Tournament mesmo, ou seja em modo cooperativo como o jogo em que falaremos hoje: "F.E.A.R."

Especificamente nesse terceiro game, o jogador conhece a história dos irmãos Point Man e Paxton Fettel. O segundo era o principal vilão do primeiro jogo da franquia, no qual Point Man agia como o protagonista que buscava eliminar Fettel. Agora, anos após os acontecimentos de "F.E.A.R"., Fettel, morto no primeiro game, retorna como fantasma, e busca ajuda de Point Man para encontrar a temível mãe deles, chamada Alma.


Fettel mesmo com um buraco na cabeça, ele sendo um fantasma consegue enxergar alguns locais invisíveis para seu irmão. Além disso, e o mais divertido, a assombração pode lançar explosões psíquicas e controlar os corpos dos inimigos, sendo possível possuir as pessoas tomando controle dos oponentes e assumindo seus ataques e movimentos. Pessoalmente como não me dou bem com FPS, foi o personagem que escolhi e é perfeitamente recomendável para quem não sabe bem ir para a ação.


E falando em modo cooperativo, esse modo é o que me chamou mais atenção e o que me fez vidrar por ele apesar de não ter tanta experiência com FPS. "F.E.A.R. 3" conta com esse foco trazendo uma campanha estrelada pelos dois personagens principais, Point Men e Paxton Fettel. Cada um deles aqui conta com um tipo de jogabilidade diferente. Enquanto Point Man, traz a boa e velha jogabilidade convencional de um FPS, Fettel possui habilidades especiais para quem virou presunto; que como disse foi morto no primeiro game.

O diretor John Carpenter é um mestre do terror e aqui ele reitera isso. assustador e gore em muitos momentos, "F.E.A.R." traz vísceras por todo o lado e criaturas bizarras aparecendo do nada, fora a mistura de um mundo apocalíptico, com "mechas", fantasmas, guerra e monstros, tornando o game único.

Aqui os inimigos se valem de tudo e os tiros vem de toda a parte, usando os flancos e usando cobertura pra se proteger. O que torna fundamental o modo cooperativo tanto quanto divertido, como se eu e meu amigo fôssemos uma inseparável dupla mesmo. Essa diversão é o ponto alto do jogo. Sobre o enredo esse é um caso a parte. Sinistro do começo ao fim, de um lado temos uma aberração que é o Point Man, Fettel como um espírito que voltou dos mortos, e sua maligna mãe Alma. Nesse caso as legendas em português são mais que bem vindas nos brindando com uma história digna de um dos melhores filmes de terror.

Para mim não é desejável um game praticamente infinito, isso se torna cansativo, mas curto demais também incomoda, e esse é o caso de "F.E.A.R 3". Lamentavelmente de tão bom, o jogo é curto. Com 8 atos também curtos, numa jogada só e num dia, ele é facilmente terminável. Isso não tira o brilho do jogo como um todo, mas sendo tão bom e com um ar de "ufa" depois de passar por tantos desafios, é fácil acabar se pegando ao falar: "já?".

Já os gráficos do jogo não são acima da média capazes de saltar os olhos - pelo menos não atentei tanto pra eles -, mas sinceramente a jogabilidade e a ação frenética do jogo são tão boas que isso acaba passando despercebido. Tanto quanto seu enredo é ótimo, claro. 

Com sua primeira versão lançada originalmente para PC no longínquo ano de 2005 produzido pela Monolith e distribuído pela Vivendi Games, com a supervisão de John Carpenter nas cenas animadas, o game de 2011 retornou trazendo de volta para a franquia o clima de terror que andou meio de forma do segundo game. Uma fórmula de sucesso e o diferenciando da enxurrada de FPS de guerra que vemos por aí, com um divertidíssimo modo cooperativo e uma Inteligência Artificial desafiadora. Me diverti muito!